Um dia, de sùpeto,apresentou-se
ante mim e com oseu
rosto
risonho assim me falou:
-Nâo
te asustes,eu sou teu amigo,sei das tuas cuitas
e vim
a compartir contigo a canga do ser e nâo ser.
-Chama-me
como queiras,mas eu sou J-N. o Joâo-Ninguèm
deste
e do outro mundo,mas para ti serei sempre um
fantasminha
camarada.
Desde entâo
somos inseparàveis,somos o que somos
e nâo
tem mais definiçâo. Esto è assim porque os sonhos
as
veces tenhem menos mistèrios que a vida mesma e
este
è um sonho elevado à categoria de realidade,como
se
a vida fosse umha perpètua ensonhaçâo.
A Rosa dos ventos
nasceu dumha iluçâo e aì està a
marcar
o norte dos sem esperança,dos aflitos e dolentes.
J-N.
è essa Rosa imaginada que alumea como umha
estrela
na mâo piedosa do suplicante.
3-4
Desde
que o homem apareceu sobre a face da terra,
sempre
teve momentos de felicidade e de amargura,
esta
acaparou sempre a maior parte ao longo da vida
e hoje
como dantes nâo o è menos,daì que os tragos
amargos
sâo tantos que sô podem ser levadeiros
atravès
do sonho.Um sonho que o ideal deteste mas
que
a realidade impoe.
Que seria de mim,se
nâo me atopara,no medio deste
imundo
lamaçal donde o corrupto è louvade e o
lambiocas
invejado,com J-N.o meu fantasminha
camarada?
A donde se iriam espatifar os meus osos
se
nâo tivese a sua mâo amiga para guiar os meus
passos
por este incerto pais de trampas?
Quando com ele caminho,colhidos
da mâo, sinto
a caricia
da felicidade e penso: Serâo,acaso, tâo
felices
aqueles que vâo gozosamente acomodados
na
carroça do poder ou do trinfo? Dime ti,
Oh
meu bendito amigo!
E J-N. deste jeito
me falou:-Sim, a criatura domada
sempre
è ditosa ao lado do amo.Repara no câo e
olha
como pula e move o rabo ante a presència do
dono!
O triste è aquele que quer voar e nâo tem
alas
nem ilusâos!!
5-6
Um
dia nâo moi longinquo,sonhei que numha sô
aperta
poderia abraçar a todo um povo,dando-lhe
a uns
feliciade e alento a outros
Ai de mim! aquel
ideal tolo,mostrou-me o que
jamais
ninguem precisa saber;o como picam os
espinhos
e de que jeito escozem as urtigas.
Agora que te tenho
a ti,J-N.como meu companheiro
e amigo,posso
jà sonhar como entâo,mas sem
preocupar-me
da dor? Dime se ao teu lado,posso
abraçar
ao mundo todo sem perigo?
-Olugar de donde
eu venho,està cheio de seres
como
eu,os bons andam ceives por todas partes,
os
maus arrastam cadeias e os perversos nâo se
podem
mover,tal è o peso dos seus grilhâos,
equivalente
aos seus pecados.
Eu,nâo entanto,adquirì
o estatus de fantasma sendo
pequeninho
e inocente e se tenho a vantagem da
pureza
sem màcula,nâo possuo a sapiència dos
adultos
que sendo bons e generosos,estâo em toda
parte
donde querem,aconselhando ou inspirando
aos
nobres mortais.
De mim nâo
esperes mais que a frescura dum
tènue
suspiro.Eu sô tenho para oferecerte,o sorriso
da
sinceridade e pode que seja moito pouco para
quem
tanto espera e atè inutil quando nâo
pernicioso
para mais de um,mas è tâo grato
aos
puros de coraçâo!
7-8
Atè
donde me levarâo os meus passos? Se eu
tivesse
alas como as andurinhas,voaria atè o infinito,
mais
ei aqui que tenho um corpo pesado e torpe,
atado
a terra que o alimenta.
Sô a alma atravès
do ensonho pode apascentar
nos
verdes campos da iluçâo e alì flutuar no encanto
das
boas intençâos,pero nada mais,jà que a realidade
è
outra e teimuda.
Por isso tanto eu
quero e apreçoa J-N.o meu
fantasminha
camarada.Com ele a minha vida
è
umha dita,pois o irreal torna-se real para meu
contento
e felicidade sua.
As veces paroleamos
e sorrimos brincando como
duas
zagalas no verde prado à perseguir umha
vistosa
borboleta.Eu medro na ditosa hora em que
estamos
juntos e nâo è para menos,pois que J-N.
tem
sensibilidade de abondo para fascinar
umha
pedra.A mim enlaiado me deixa
quando
escuto a sua voz.
O outro dia falou-me
assim:
-Eu
que estou privadode sustància corporal
e sei
desenvolver-me à perfeiçâo no espaço mental,
moito
mas amplo,a vez que arquètipo sustentador
de
todas as cousas,polo poder da palvra,na que o
espiritu
botou as mais fundas raizes,pena sinto
dos
desleigados da fala quando mergulham
na
negra fossa do poder.
Escutando esto estremecì,mas
ele logo sorriu
para
mim e logo esquecì.
9-10
Tenho
umha fè cega no perdâo de Deus e isso
porque,quem
mais que o falto de valor para afrontar
os
problemas que fazem deste mundo um lugar de
desdita
e expiaçâo è merecedor da sua graça?
Este è o meu
caso,posto que nâo tenho vocaçâo de
martir,nem
aspiro neste mundo ao posto de redentor.
A minha
capacidade de acçâo e projecçâo nâo
vai mais
alà
dos meus suspiros.
Hoje,se nâo
tivesse ao meu lado à J-N.o meu
fantasminha
camarada,creio que morreria! Tâo
necessària
è para mim a sua presença que jà nâo
percebo
a realidade como ela è senâo como ele ma
apresenta,de
jeito que se me calùniam ou perseguem
por
cousas desta terra nâo me enfado nem sofro por
elo,pois
jà bem me tem dito J-N. o como e de que
jeito
assim forom tratados todosos antergos
petrucios,mas
bem conhecidos polo bom povo
como
os precursores.
E nâo sô
eu creio na sua palavra,è o seu olhar,
que
quando fala tem tal meiguice,que precisaria
nâo
ter olhos para nâo enxergar a doçura da sua
alma
ainda em flor,e ante sentimento tal,quem se
resiste
a nâo continuar polo mesmo vieiro ainda
que
esteja semeado de trampas e de espinhos.
A fè ainda
que cega,è sempre humana e de
humanizar
a vida è do que se trata.
11-12
Abençoado
sejas,Oh meu bom amigo J-N.
Fantasminha
camarada!Pois que,no encanto da
tua
palavra,acho alentos e folgos de abondo para
continuar
as lavouras que umha mâo invisivel
me
indicou.
Quiçais que
nâo poidas,mas ainda que puderas,
jamais
me des riqueza nem poder.dame daquelo
que
è mester para caminhar pola senda do bem,
nâo
seja que farto e soberbo te diga: Quem
eresti?
Para que te quero ao meu lado
se
fostes criado por um mìsero sonho?
Nâo,dame amor
e dosura para que jamais
seja
um blasfemo,ou que em nome do criador
te
repùdie como a um apestado.
Eu quero ser como
sou e se puder cada dia
mais
puro na humildade e terte sempre de
companheiro,tanto
de dia como de noite
e que
a minha andaina jamais se aparte
da
tua candura,do teu olhar meigo
e dessa
tua voz que em nada se
diferència
do cantar dos anjos.
Nâo,nâo
pretendo eu possuir laudas nem
glòrias,sô
me basta um peito que seja jacigo
dum
coraçâo tal que nâo caiba despois de
morto
em tùmulo algum,que seja tâo grande
e portentoso
como o teu olhar inocente
ou
o sorriso dumha flor
ao
nascer.
13-14
Nôm
tem nem um sô dia em que nâo fale com
J-N.o
meu fantasminha camarada.As veces falo
das
alegrias da vida,outras das tristuras e momentos
amargos
que nunca faltam aos mortais.Com tudo,
nâo
è raro que o mais das veces me refira a algum
problema
que aflige ao povo e que de facto tem
cura,ou
quando menos compostura.
Tal foi que um dia,deste
jeito falei para J-N.
Dime
amiguinho: porquè,ti que podes,ou a mim
assim
mo parece,quando te achas ante tantos que
sofrem
a vassalagem dos fortes e poderosos,
nâo
te acercas a eles e os despertas desse
sono
que os tem encadeiados ao nojento
mundo
do servilismo?
Atè o ponto
que tudo soportam em troques
dumhas
migalhas e vâo pola vida a diante como
sonàmbulos,todos
felices de nâo ter inquietudes
nem
desassossego.Fala-me desto!
-Eu jà te
disse,que nâo tenho entendedeiras como
os
maiores do meu mundo,mas ainda assim,
intuio
que quando o povo dorme deve-se
deixar
dormir,a nâo ser que se tenha a
certeza
de que està a sonhar com
a liberdade.
Sô quando esto
acontece è que se deve abanar
a àrvore
para logo recolher o saboroso fruto.
Mas,ao
que eu sei e ante o que olho,nâo
se
dà este caso,nâo.O povo dorme
sossegado.Descanse
em paz!
15-16
O dia
em que vi com os meus olhos,como as mâes
em
vez de educar aos seus filhos os estupidizavam
e aos
pais,que tenhem a obriga de os ensinar,
ocupavan-se
em os domar,juro que desejei
morrer
e que pedì a Deus que fendera a
terra
para que me tragara.
Tal foi o meu desencanto
e amargura,que ainda
hoje
tremo ao pensar que devo persistir no
projecto
de vida que a providència
me
ditou.
Abensoado sejas sempre
Oh J-N. meu fantasminha
camarada!
Pois que por teu favor esqueço essas
amargas
vivèncias e podo livremente sumergir-
me
nesse prodigioso mar de esperança que
me
oferendam o teu meigo olhar e
sorriso
inocente.
Com os quais posso
resurgir feliz ao ansiado alvorar
dum
futuro,que hà de emergir irremediavelmente
de
tanta imundice,a que a jeito de esterco
server-hà
para adubar os melhores
frutos
do porvir.
A grande verdade
è que por mui experto que seja o
semeiador,jamais
farà que floreçam os virginais
prados
em pleno inverno,mas ante o teu olhar
sincero
e prenhe de candura,eu creio que
atè
as pedras podem parir umha flor.
E se assim è
como penso,dou por sofrivel a sanha
com
que o destino me atossiga no meu passo
pola
vida,em troques da feliz dàdiva que
para
mim representa a tua
assistència.
17-18
È
com o esterco do presente que se hâo de adubar
os
frutos do futuro. Pensar que a terra vai ser um
ermo
sô porque o homem è um cretino,imbecil
e corrupto,è
nâo ter senso e perder as
coordenadas
da vida e
da
història.
Os grandes mostrengos
de outras eras findarom
pola
capacidade que tinham de devorar,mas os
seus
corpos putrefactos,servirom para estrumar
as
terras nas que mais tarde germinarom
as
mais variadas formas de vida.
Com estas apreciaçâos,posso
adiantar que todo
o que
hoje os meus olhos atopam como impuro
e decadente,hà
de se converter com o tempo
em
fonte de nova saiva fecunda.
Mas esta anàlises
posso-a realizar graças à
presença
constante de J-N. na minha vida. de jeito
que,a
pesar de nâo ser mais cousa que o fruto dum
sonho
tardio,è para mim e o meu conflitivo viver,
como
um cèu aberto ao futuro e a esperança.
Sem este meu fantasminha
camarada,o meu destino
nâo
teria outra rota que à dos grandes bichos papâos
devoradores
de energia e com elo à auto-destruiçâo.
Graças a ele,podo
flutuar no etèreo mundo da fantasia,
nessa
ficçâo que dà o poder de engendrar ideas novas
e felizes,muito
em especial para as almas puras,
desses
que sempre forom chamados,com muito
acerto,os
Santos Inocentes.
19-20
Nengumha
cousa neste mundo me arrepia tanto como
olhar
a essa legiâo de adoradores e aplaudidores do
poder.Sumisos
devotos da religiâo mais estendida
sobre
a face da terra: A do servilismo ao
bezerro
de ouro.
Que triste tem que
ser a vida desses que jamais forom
capacer
de discernir entre a ilusâo e a realidade,entre
o
ensonho e o cotidiano,entre o fantàstico e
o possivel
e se deixam arrastar pola
correnteza
das aparèncias,magma
corruptor
de toda alma indefensa!
Penso que,se cada
criatura das que me refiro,tivera
ao
seu lado um J-N. como eu tenho,para lhe limpar
as
teias de aranha que cobrem os seus olhos e
lhes
desentupir as orelhas da nojenta sera que
o tempo
foi pousando,creio que poderiam
enxergar
bem mais alà das suas narices
e reconhecer
ao instante o vil canto
de
sereia que os atrae.
Um fantasminha como
J-N. pode realizar milagros,
nunca
dantes vistos e fazer com a sua palavra que
qualquer
mortal desperte dos fraudolentos
sonhos,que
umhas caracolas artificiais
produzem
na mente do homem.
E isso porque J-N.
è como umha refrescante brisa,
que
fai desaparecer o brilho das oropèndolas.
È
o amor,feito esperança,na voz da flor
que
se transforma em fruto.
21-22
Nâo
è por um mundo bucòlico que o meu coraçâo
late,nem
pola paz dos cemitèrios que minha alma
suspira,nâo,è
por essa grata satisfaçâo de olhar
ao
vecinho sorrir como quando nenos,pese a
terem
sido piores tempos e ao proximo,
desfrutar
da hora presente,no seu ir e
vir
para donde as obrigas o levem.
Tâo grande
è o meu anseio de olhar a felicidade
do
povo,que atè esqueço de eu mesmo ser feliz!
Ao
par que,como pode um ser ditoso arrodeado
de
tanta tristura e carantonha?
È-lhe possivel
ao ser sensivel com os problemas
dos
semelhantes,desfrutar das alegrias da vida,
quando
as houber,se ao seu lado e no seu
caminho
sô acha mendigantes ou tùsaros
de
cara osca e sòrdida,carcomida
pola
cobiça ou a luxùria?
Nâo è
possivel .creo eu e em base a esta crença è
que
acho nâo ser quimera,a felicidade autèntica
de
quem tem por amigo à um fantasminha
camarada,com
quem se pode parolar
em
fraterno e alegre trato.
Sô assim,as
horas da vida passam ledas e cantarinas
como
a sonata dum regato,sem contaminar,que
desce
pola ladeira da montanha donde
todavia
aninha o mirlo e trina
o ruissenhor.
Ditoso aquel que
ainda nâo renunciou ao sonho e
tem
capacidade para entusiasmar-se com a
fragància
dumha simples flor.
23-24
Antes
de conhecer a J-N. esse maravilhoso fantasminha
camarada,que
veio do misterioso pais das brumas,
eu
era um dos homens mais infelices do mundo.
Tâo estùpida
era a minha existència que quasi se poderia
comparar
com a dos cretinos que vâo de aquì para acolà,
sô
por aparecer ou dar-se a valer,nâo por eles ou a sua
pessoalidade
e sim por o lugar donde se encontram.
Si se està
rodeado de borregos è impossivel que nâo se
recolha
o cheiro do sebo que os fai reluzir ao sol.Nâo
se
pode viver numha esterquira sem feder à
imundicie
que a compoe.Por isso eu era
tâo
infeliz!!
Agora,sem mais,sou
outra pessoa e jà tem quem anda
dizendo
que tive de achar um oculto tesouro que
ninguèm
conhece,ou que a fortuna me foi propicia
e encheu
o meu peto de dinheiro e que por tal sou
ditoso
e vivo sorrindo e felice como se este
mundo
fosse um paraiso.È possivel
que
tenham razâo!
A verdade è
que desde que privo com J-N. nâo
tenho
outra cizanha que a que me pode advir
dumha
possivel falta de saude,fora isso a
minha
vida è como um rio de contentura
sem
mais cascadas que as precisas
para
entoar loas ao criador
de
todas as cousas.
25-26
As
minhas loas nâo sâo para os que mandam ou
detentam
o poder,nem para os fàtuos deste mundo,
nâo,as
minhas loas sâo para o que fez a àrvore ou
a plantou,para
o que deu voz ao ruissenhor ou para
quem
o protegeu,sâo para Aquel que fez brotar
os
riachos e para quem nâo os contaminou.
As minhas loas,se
algo valem,sâo para dignificar aos
esforçados
em paliar a dor dos dolentes,ou aliviar
a carga
dos que sofrem a canga da vida,para
dar
voz aos que nâo podem falar e coragem
aos
dèviles,para esses e para todos os
rebeldes
do mundo sâo as minhas loas.
E agora junto a elas
o sorriso e a olhada tenra
deste
bendito fantasminha camarada com que
Deus
me agasalhou,unindo a minha voz a
dele,para
aos verros,denunciar bem
alto
as injustiças que assolam
aos
deserdados da terra.
O outro dia,ao unìsono
bradamos assim:
Oh
ti, a quem o òpio do mando ensurdece e o brilho
do
ouro cega,escuta o que nôs pensamos em voz alta
para
que toda a humanidade se entere.
Nôs,afirmamos
que umha loa ao poder è
como
umha dentada no coraçâo do
oprimido,que
è,como roubar-lhe
a paga
aoque volta do trabalho
ou
o pâm ao que vem
de
semear a terra!
27-28
Quando
era pequnino,tive um deslize e caì ao rio,
se
nâo tivesse passado por alì umha alma piedosa,
eu
seria agora umha lembrança perdida na memòria
do
meu povo.Creio firmemente que a J-N. lhe sucedeu
como
a mim pero sem ter ao lado a mâo bem feitora e
entâo
sucumbeu.
Hoje è o meu
fantasminha camarada,quizas por o simil
das
casualidades,mas ei aqui que o seu amor,inocència
e bondade
è tanta,que nunca teve ciumes de o seu sino
ter
sido tâo diverso do meu,de tal sorte que atè mim
chegou
sô para oferendar-me o seu carinho e a sua
alegria,movido
tâo sô polo sentimento fraterno que
une
aos humanos e os diferència das alimànhas.
Seu destino foi sucumbir
ante os fados da vida
mas
nâo claudicar da sua condiçâo de criatura
humana
ainda nâo pervertida.
Confeso que polo
seu alegre comportamento
e essa
meiguice,ingènua umhas veces,atrevida
outras,è
que me sinto o mais feliz dos mortais.
Com ele eu falo e
teimo,e moitas sâo as horas que
passamos
brincando entre as humildes ervinhas,
que
tenhem por teito a bòbeda do cèu e por fala
o
suspirar do vento.Com el eu rio e canto como
riem
as ondas rebulideiras e cantam as lìmpidas
àguas
ao caer sem màcula sobre a crista
desta
minha boa estrela.
29-30
Que
dasditado tem que ser o povo que nâo sabe
elevar
a voz a nâo ser nos funerales para laier-se.
Triste
do homem que tâo sô nos cemitèrios,ante as
tumbas,mostra
apreço aos semelhantes.Desventurada
a naçâo
que para identificar-se,espera que lhe ponham
como
mansa ovelha a espada no pescoço.
Ai de mim,que tais
cousas tenho que testificar,pois
ante
os meus olhos sô acho arrenegados,desleigados
ou
espiritus serviles,capaces de vender a sua alma por
um
mìsero posto bem renumerado ou de alto topete!
Sâo os tempos
que me tocou viver,a mim e a J-N. o
meu
fantasminha camarada,êpoca escura e pestilente
na
que nâo tem outra possivilidade de viver
decentemente
se nâo è remontando-se aos
mais
altos cùmios das nubens negras que
ensombrecem
a terra neste fim de milènio.
Nas alas da fantasia,nôs
atè là galgamos e là
construimos
um pequeninho alvergue para os dous.
Alì
somos felices,o quanto è possivel o ser aos
humanos
nos dias que correm.
Umhas vaces cantamos
e sorrimos,outras,repousamos
em
silèncio,mas quando nos lembramos dos tristes
e desafortunados
deste mundo,choramos. As
minhas
bàgoas sâo como croios,as de J-N.
como
pètalos de rosa!!
31-32
Nâo
hà moito tempo,estando eu sentado na praia,
olhando
as ondinhas que mansas vinham a beijar
a humilde
areia,reparei que de tantas e em todo
o tempo
nem umha sô, se revoltou e virou em
contra
da força que a todas arrastava ao mesmo
fim:A
morrer bicando a terra infecunda.
Meditei sobre o assunto,e
me estremecì,sô em
pensar
que talvez fosse eu um homem de moral
errada,que
nadando polo mar da vida,sempre
contra
correnteza,emulava aos hipòcritas que
fingem
umha moral que nâo possuem.
Acaso todo quanto
me rodeia està equivocado
e no
certo eu? Serà que entre tantos,sô eu tenho
a estrela
que indica a rota certa do bom proceder?
Eis
aquì que estando nestas cavilaçâons achegou-
se
a mim J-N. o meu fantasminha camarada e
assim
deste jeito me falou ao ouvido.
-Nâo desesperes,sosega.A
vida e o mundo nâo
è
sô este instante nem este lugar. Olha a imensidâo
do
cèu e comparao contigo e com este recanto em
que
estas a meditar.Verdade que nâo tem
comparança?
Que nâo tem assimilaçâo?
Assim è a
existència e o mundo,mas lembra sempre
que
o ruissenhor quando canta nâo se planteia
tais
disquisiçâons!!
33-34
A sombra
dum velho e retorcido carvalho,
achava-me
eu absorto com os meus pensamentos
e admirei-me
de olhar na insignificante erva o
mesmo
germo de vida que no gigantesco àrvore.
Deducì entâo,que
o criador dotou a todos os seres
do
mesmo estigma de vida,assim que,quando modelou
ao
homem ao mesmo tempo surgiu a pulga e com ela o
mistèrio,pois
nâo tem dùvida que ante os òbices que
existem
na terra,um se espanta da capacidade que
tem
este insecto,tanto para saltar como para sugar
o
sangue dos outros,maximo se apreciamos
que
està isenta de cerebro.
Eis o enigma: Se
o homem tivesse tal capacidade,
atè
donde chegaria o seu desatino,supondo que
conserva-se
as manhas das que mostra gala?
Eu nâo pude
responder,mas J-N. que sempre està
ao
meu lade aclarou-me:-Se reparas na vida dos
humanos
logo cairàs na conta de que mais de um
mostra tal capacidde para sugar o sangue dos
seus semelhantes e tâo pouco sem,que nâo
è
de estranhar que a ciència cale
ante
tal prodigio.
-As misèrias
do mundo dâo fè do que digo e se
duvidas
desce à terra e deixa as estrelas!
Assim de facil responde
a inocència as grandes
preguntas,com
duas palavras e um pouco de
sinceridade.
35-36
Jamais
pensei que um dia havia de falar
com
a parede e a o mesmo tempo ser feliz.
Nem
pola cachola tal cousa me passou noutros
tempos,mas
agora,afeito a J-N. jà nâo sou
capaz
de suportar umha conversa com
os
meus semelhantes.
As veces esforço-me
por comprender aos que
me
rodeiam,mas nâo posso,nâo sou capaz.
Outras,sou
eu quem diz algo e nada,a minha
palavra
soa como se for dum homem doutra
galaxia
ou de outra era.
È inutil,toda
a minha bontade escacha-se contra
umha
terca realidade que nâo tem jeito de amolecer,
mas
ei aqui que quando atopo umha flor perdida no
monte,ou
um humilde prado escondido no bosque,
ou
me acho ante umha posta de sol a reflexar-se
na
ria,ou na fraga a carom dum regato donde
o moinho
ainda move a roda,entâo eu
comprendo
o mistèrio da vida e leo
como
num livro averto a sua
mensagem.
Tamèm,quando
vejo sorrir umha criansa ou aspiro a
tènue
fragància dumha adolescente ainda impùbere,
eu
reverèncio a majestosa sapiència do criador e
agradeço
a sua bondadepor me ter dado,sem o
pedir,a
inverosimel idea de falar com essa
parede
donde sempre inefavelmente
se
acha J-N. o meu fantasminha
camarada,com
o qual eu sim
que
bem me entendo.
37-38
Que
tem cousas que se podem melhorar nâo è
nengum
segredo.Que a vida dos humanos conheceu
èpocas
peores è por todos reconhecido mas,a verdade,
esso
que se diz,a certeza quimicamente pura dos feitos,
fastos
e vivèncias da humanidade,ninguem pode
pavonear-se
de amostrar a sua fòrmula e
moito
menos à demostrar.
J-N. o meu fantasminha
camarada,as veces insinua
algumha
que outra pista,diz atè aqui nuns pontos e atè
alà
noutros.Sempre fala,parolea,mas jamais afirma
que
progresar seja melhorar o passado.Nâo, ele
dà
voltas e mais voltas a roda da dùvida e
nâo
se conforma com fòrmulas puras
e muito
menos com preposiçâos
complexas.
È um autentico
paradigma da especulaçâo,ou se
melhor
assim se entende,um iluminado das ilusâos,
mas
no fundo,tudo reverte em dar a entender que
o grande
projecto de vida,o verdadeiro comportar-
se
no dia a dia,consiste em caminhar cara o futuro,
sem
vacilaçâos nem quebradeiros de moleira.
O essencial,segundo
o seu parecer,è caminhar pola
senda
do porvir atè dar com essa nova geraçâo
que
hà de recolher o testigo do nosso
passo
pola terra.
39-40
Nâo
tem duvida que a maior razâo pola que reneguei
de
todo e de todos,assentase na terrivel verificaçâo
de
que os poderosos e os fortes,crêem firmamente,
que
tanto o Sol como a Lua e as estrelas do Cèu,
sô
reluzem nos seus cofres e que nâo se
ponhem
senâo nas suas arcas.
Esta amarga certidâo,causou
em mim tal efecto que
desejei
morrer.E assim sucederia se J-N. o meu
fantasminha
camarada nâo o impedira com a
sua
candura e inefàvel sorriso,adoçando as
minhas
horas amargas e dando-me as
forças
necessàrias para afrontar
umha
vida que detestava.
Sim,desde entâo,eu
perdì o senso da realidade e
vivo
como a voluta de espuma,na crista das olas
que,ainda
que furioso o vendaval,ao as estoupar
cotra
os penedos,nengumha dor lhes produce,
pois
elas,etèreas e flutuantes,sobressaem
por
entre os àsperos rochedos e vâo
voando,voando,atè
pousar as veces
numha
moita de flores,outas,na
cabeleira
sedosa dumha
donzela
e o mais das
veces
desaparecem
no
infindo azul
do
Cèu.
Esse Cèu que
tem por manto um firmamento
cheio
de estrelas,sem amo,dono ou senhor.
41-42
Pretendì
eu um dia,saber de J-N. se era certo que
umha
vez morto o corpo a alma tamèm morria ou
prdurava;de
facto,um fantasma,deve-se entender
como
um espiritu ou alma jà ceive do corpo,mas
sendoJ-N.
desses que nunca dizem claramente
a verdade,senâo
que a insinuam,quisse eu
certificar-me
e teimei na pergunta.
Entâo ele,respondeu-me
entre sorrisos e
gargalhadas,deste
jeito enrevesado:
Olha para ti mesmo
e imagina-te que em vez de
corpo
animal estas constituido de matèria vegetal,
como
as àrvores.Repara que creces como umha
planta
qualquer,que florecem os teus galhos e
que
logo de que a flor morre a semente fica,
da
qual brotarào outras àrvores ou plantas
exactamente
iguais do que ti e assim por
os
sèculos dos sèculos e mentras a
vida
exista,ainda que dela se
perda
a memòria.
E se esto è
certo como assim parece,para què
duvidar
se em troques nâo se apresenta umha
alternativa
com visos de certeza!!
Ouvido esto,meditei
por um tempo e tirei a
concluçâo
de que o mais ùtil e agradàvel para
o homem
è escutar o mirlo do vico dourado a
cantar
là no alto da cerdeira e a poder ser,
acompanhado
dumha zagala dessas que a
natureza
dotou da beleza necessària
para
enfeitiçar atè umha fera!!
43-44
De
tantas cousas maravilhosas que tem neste mundo,
quiças
que a mais bela seja a capacidade que tem o
homem
de sonhar.
Imaginemos e isto
jà è apelar para o antes exposto,
um
povo sem capacidade para à alegria,tristonho e
sempre
mal-humorado,que nâo tem aptidâo,por
insensivel,para
chorar as suas màgoas nem as
dos
demais.
Atinemos agora com
os sàbios e doutos,autènticos
expoentes
da èlite desse povo que nâo e capaz de
sorrir
a gargalhda,ao par que è impotente para
cantar
e foliar como o que mais.
Tamèm podemos
fixar-nos para os que cheios de
glòria,fortuna
ou poder,nâo sâo capaces de
inclinar-se
ante a inocència dum neno,jà
porque
o pesso das suas alforjas nâo
lho
permite,jà por temor a sujar ou
quebrar
as dèviles plumas de
ouropel.Juntemos
tudo esto
e logo
teremos o germem
das
misèrias todas
deste
mundo.
Quando eu palestro
com J-N. sô fago arrenegar desse
maldito
costume,de jeito que nas alas da fantasia e
colhidos
da mâo,vamos bogando ledos e sem pausas
por
esse imenso mar que è de facto a negaçâo da
realidade,mas
que atesoura no seu seio a
semente
sempre fertil,dumha existència
plena
de felices horas,belos alvores e
sustanciosos
momentos de amor
e gozo
sem par.
45-46
Um
dia visitei um cemitèrio e pasmado fiquei
de
ver tantas tumbas enfeitadas menos umha,
que
as ervas silvestres tapavam.Tentei descobrir
de
quem era aquel tùmulo,pero em vâo,nâo achei
nem
làpida nem signo algum de alma que
um
dia viveu entre nôs.
Estava eu moito triste
e apesadumbrado quando
veu
ao meu lado J-N. e garimosamente ma falou:
Tens
que saber que quando um poeta morre o
idioma
fica òrfâo,por isso,aquì neste nicho,nâo
acharàs
lembrança ou epitàfio algum,sô podes
achar
em qualquer momento a outro poeta
ajoelhado
a chorar laiando-se polo idioma
abandonado
e despreciado.
E isto porque o povo,manipulado
polo poder,
sô
se pergunta:para que serve um poeta?
-Para
nada,responde o poder,se nâo è
para
cantar os fastos gloriosos dos
que
ordenam e mandam!
Sendo assim o que
estranhar-se de achar o
tùmulo
comesto polas silvas,se este è o
fim
certo do que nasceu para cantar
o amor,a
virtude e a verdade!!
Esta è a coroa
com que se premia ao bardo
que
loa a justiça,clama por a liberdade e
denùncia
com o seu brado a
podredume
deste mundo!!
Vem com migo,vamos
brincar ao prado,que
ti
nâo eres poeta,Tu eres como eu:
Um
fantasminha grandalhâo
e nada
mais...
47-48
Que
triste tem que ser a vida de aquel que
envès
de olhar por os seus olhos,sô enxerga
com
as lentes do amo e senhor.
Pobre do que na sua
pitonhice e surdeira acha
sô
beleza na presència do triunfador,doçura na
voz
de mando,melodia no som das joias ou no
retintim
das moedas e sapiència na petulància
do
ensoberbecido polo poder ou o exito.
Que oca tem que estar
a sua mente
e que
podre o seu peito.
Por esto è
que tento perdoalos nâo os exculpar,
pois
que no fondo nâo obram com bontade prôpia
e sim
como autòmatas ou bonecos a jeito de
marionetas
ante um pùblico de paspans.
E com que direito
posso eu condenar a uns seres
que
para seu mal e perdiçâo o destino negou
a vista
mas outros sentidos!
Mesmo eu,que sou
o mais agraciado dos mortais,
desde
que o Cèu me regalou com a presènça de
J-N.
o meu fantasminha camarada!
Eu que com
tal companha posso viajar a outras
galàxias,penetrar
nas abismales profundezas
dos
ocèanos e adentrar-me nas recònditas
covas
da fantasia e da iluçâo!
Nâo,eu nâo
podo nem devo,desde o meu posto
de
previlegiado do destino condenar a ninguem!
Eu
sô devo alavar e agradecer a Deus,por me
ter
concedido esta maravilhosa dita de
poder
sonhar a prazer!
49-50
Passavam
ante mim as multidâos todas em
procissâo
e intentei unirme a elas para seguir
aos
que caminham e nâo ficar parado olhando
como
passam os que andam.
Tive um impulso desesperado
de unir-me a todos
como
um mais e seguir aquele sendeiro para
mim
desconhecido e impreciso;mas ei aqui
que
nesto apareceu J-N. e ao par que
me
retinha assim me reprochou:
-Estàs tolo?
Nâo ves que essa è a santa companha
dos
conenados por corruptos e serviles? Nâo te
das
conta de que esse è o rebanho das bestas
humanas
hipnotizadas pola cobiça e o
poder
do dinheiro?
-Acaso nâo
escutas os seus cantos todos em
alabança
ao poder e os seus rezos,que em forma
de
pregària,invocam sumisos ao becerro de ouro?
Caminhar
caminham, pero para a perdiçâo!!
-O teu caminho è
outro,nâo tem folias nem aplausos,
nâo
està alfombrado de pètalos de rosa,nem alumeado
por
os fogos de artefìcio,nâo, a tua senda è àspera
e
abrupta,acà
um um espinho,acolà um tojo e mais
alà
umha silva,mas,è seguindo esse vieiro que
acharàs
o jardim maravilhoso donde se
esconde
toda a sabiduria do mundo
e toda
a glòria de Deus!!
51-52
Matinando
estive por moitas vegadas a cerca da
naturaleza
das debilidades humanas e confeso
que
jamais fui capaz de tirar concluçâos firmes,
ou
quando menos decentes de apresentar,
nâo,sô
achei duvidas e incertidumes.
O homem sàbio,pode
ser feliz,mas nâo acha a maneira
de
melhorar o mundo com a sua sapiència e menos
com
a palavra.Devil è a sabedoria ante a imponente
teimosia
da realidade! O bom e generoso,pode fazer
quanto
bem queira e dar mostra de sua bondade a
carradas,mas,jamais
regenerarà a um estùpido
nem
endereitarà um torto de tanto inclinar-se
ante
os poderosos.
E o poeta! Que pode
com o seu canto entre ao clamor
e a
balbùrdia dos que aplaudem e gritam hosanas e
glòrias
ao ìnclito triunfador neste campo de
batalha
que è a vida? Nada!!
Ante estas divagaçâos,J-N.
achegou-se a mim e
falando-me
ao ouvido,como o que teme que ante
o estrondo
das multidâos enfervorecidas nâo
seja
escutado,assim me disse:
-Repara que o poeta
nâo opina,sô canta e sorrì,
de
tal jeito que a sua voz por devil que seja,
chegue
ao coraçâo do povo como um
bàlsamo
de amor e o seu sorriso
como
umha brisa que acarìcia
um
rosto sudoroso de prazer!
53-54
Tem
veces em que as horas da vida sâo menos
amargas
que outras;umha destas vezes foi
quando
passei umha longa temporada
matinando
com a valor das cousas
deste
mundo.
Moitas e diversas
sâo as que os humanos tenhem
em
grande apreço e por mais de umha,infindos
forom
os que derom a vida por as conseguir.
Esta è umha
realidade inquestionàvel e entre os
amantes,numerosos
sâo os casos em que por um
suspiro
laguideceu e logo morreu mais de umha
donzela,ou
que por a olhada garimosa dumha
garota enamorada,tal ou qual galâo perdeu
o juizo
e pateou coma um ruissenhor
fascinado
pola beleza dumha rosa.
Todo isto passou
pola minha cachola e tamèm o
para
què vale o poeta neste mundo e para o
què
serve a poesia numha sociedade servil,
massificada
e cobiçosa?
Acaso tem sentido
para esta escòria humana,
a beleza
dumha carroucha em flor ou o canto
do
mirlo do bico dourado,là no alto da
cereijeira?
As minhas cavilaçâos
findarom quando J-N.
me
espetou deste jeito:-Sosega amigo,o dia
em
que morras,as tuas perguntas hâo de achar
resposta.Esse
mesmo dia eu te ei de dizer o para
què
vale um poeta e o para o què serve a poesia.
Tamèm
te direi porquè o seu canto perdura
no
tempo alem da història.
55-56
Quis
ajoelhar-me e nâo pude,
os
meus olhos sô reparavam naquelas mâos
cheias
de ouro,pechadas e aferradas como
peto
de avaro.
Intentei escutar
os seus cantos e as suas plegàrias
e foi-me
impossivel,tinham a boca chei de manjares
baboseando
o prebe que o guloso è incapaz
de
reter.
Pobre de mim! Naquele
momento que tanto,
precisava
dumha mâo amiga e dumha palavra de
consolo,sô
achei a pancada que vem de nâo sabes
donde
e que te deixa em nengures.
Bendito sejas ti,Oh
J-N! meu fantasminha comarada,
que
logo chegaste ao meu lado e com deligència e
ternura
sem fim,realizaste o milagre,de que um
morto
para a vida resuscitara para o mundo
da
fantasia e da iluçâo.
Nâo posso esquecer
jamais aquel instante sublime
em
que me olhaste com esse lànguido olhar de neno
que
ainda crê no seu ìdolo e logo,como a caricia dum
cèfiro
prenhado de fragàncias virginais,falaste para
mim
de jeito com que eu entendera e logo pudera,
com
as minhas pròpias forças,erguer-me e começar
a caminhar
por esse maravilhoso paraiso que um
dia
o home perdeu,mas logo recuperou polo
poder
da imaginaçâo.
57-58
Ai
de aquel que tâo sô pode olhar o que revela a luz
e escutar
o que anùncia o sôm! Pobre criatura!Pois nâo
passa
de ser um cego que mora num lugar chamado
"Boa
vista" e dum surdo assiduo frequentador de
espetàculos
donde sô se producem ruidos.
Ven-me ao magim estas
reflexâos,polo quanto pode
parecer
um ridìculo ante aqueles que reparam em
como
podo eu falar com um fantasma,teimar com
ele
e divertir-me como um enano se diverte
com
um coelho domestico e cautivo.
Creio sinceramente,que
nem um sô deixarà de
pensar
que estou mal do coco e que o meu
desequilìbrio
nâo tem cura.
Serà que o
destino de todo imaginador è passar por tolo
aos
olhos dos demais? Acaso è esse o signo maldito de
todo
aquel que foge aos mandatos do poder alienante?
Serà
que o nadar contra corrente è um sinal de
debilidade
mental,assim como è de lucidez o
arrimar-se
ao sol que mais quenta?
Nâo sei,nem
jamais saberei,atè onde me levarà a
minha
insânia,mas sim que tenho por bem certo
que
eu sou o mais feliz dos humanos,quando
olho
com a alma e escuto com o corasâo!!
59-60
Pretendì
um dia,por meu prazer ou vaidade,
ensenhar
a voar,como eu voo nas alas da fantasia.
Moito
teimei com esta ideia tola e confesso que sofrì,
ao
nâo conseguir a formula capaz de levar a bom
termo
o ditoso projecto.A mais cruel das
realidades
escachava como a fràgiles
ovos,as
minhas aspiraçâos.
Tinha entâo
iluçâos de abondo,para teimar na ideia de
que
o conhecimento è a base de toda emprsa exitosa.
Coitado
de mim! Em esto como em tantas outras cousas,
sou
um fracasado,Nâo estou eu em condiçâos para
ensenhar
aos que nâo sabem nem tampouco o
conhecemento
è a panaceia que todo o resolve.
Com estas reflexâos
andava eu e sofria ,mas ei aquì que
J-N.
sempre inseparavel me abreu os olhos ao que
eu
jamais deduziria por mim mesmo.
-Escuta o que vou
a dizer-te: è um facto que o conhecimento
tem
valor por si mesmo,mas o que pretendes è irrealizàvel
por
umha questâo semantica.
Como podes ensenhar
a voar aos outros se nâo eres capaz
de
dar nem umha sô pluma das tuas alas! Nâo sabes acaso
que
o conecemento tem peso e afunda? Sò as iluçâos,essas
plumas
que confomam as alas do ensonho,podem
elevar
o homem ao mundo da fantasia!!
61-62
Um
dia tive um sonho,por nâo dizer pesadelo,no
qual
me achava arrodeado de gentes variopintas
mas
que ao unìssono clamavam para que eu lhes
entregasse
tudo o que era por naturaleza de meu.
Uns diziam: dà-nos
o teu saber! Outros: porquè nos
negas
a tua sapiència? E outroutos,mais esigentes,
gesticulavam:porquè
falas tanto e nâo nos das o
sinal
verdadeiro,para que todos os que aqui
estamos
alcancemos a felicidade da
que
tanto alardeas.
Aminha resposta foi
contundente,com as propias
mâos,rachei
o peito,arranquei o coraçâo e com
umha
faca de fino corte,retalheino de tal
jeito
que nem um sô dos alì presentes
ficou
sem talhada.
Todos comerom e saborearom,logo
eu,jà sem forzas,
vi
como insatisfeitos andavam a cata de despojos,
atè
que outra caste de rapinheiros apareceu e
começou
a devorar o que era jà cadaver.
Entâo despertei
e atopeime com J-N. o meu fantasminha
camarada,que,sem
darme folgos para respirar e
começar
a relatar-lhe o meu pesadelo,
assim
me espetou:
-Eis aquì,para
o que serve um poeta: em vida, para
alimentar
lobos,na morte,para satisfacer o
insaciàvel
apetite dos imundos
carronheiros!!
63-64
Poque
sabemos que estamos como ovelhas
entre
lovos,è porque devemos de ser cautos e prudentes
como
as serpes e singelos como as pombas,nâo seja que caia
sobre
as nossas cabeças a fùria do poder ou a inveja do povo.
Sejamos
felizes a nossa maneira,sem violentar aos que polo
força
do dinheiro,campam como os facinerosos sem que lhes
frene
a sua concupiscència,nem a justiça,nem a consciència,
pois
dela carecem;ou que,nâo seja que as turbas embrutecidas
pola
paixâo,achem em nôs um simples objecto de expiaçâo
aos
seus fracasos. Livrenos Deus, Oh meu amiguinho J.N.
de
que tenhamos que apanhar com todo o òdio do mundo,
acumulado
nas alforjas dos abutres e nas frustaçâos dos
desnorteados
polo querer e nâo poder.
Sejamos,nâo
dous e sim um sô,que escuta cala e
sonha.
Sim,sonhar e o nosso. Sonhar com um mundo novo
que
por força hà de brotar destas noxentas geraçâos,em
estado
de descomposiçâo,que nâo tenhem iluçâos
nem
aspiram a telas.
O seu
è o bandulho e nâo possuem outro ideal nem maior
felicidade
que a de chupar da teta e a poder ser da do
estado
todo poderoso.
65-66
Por
que nunca de mal falei bem,poque sempre aplaudì
ao
insumiso,elogiei ao revelde e admirei ao indòmito,
vejo-me
na obriga de sufrir o repùdio da casta dominadora,
que
impudicamente se eleva a categoria de perfeita e intocàvel.
Porque,para
suportar o ostracismo e o ailhamento entre o povo,
imposto
polos que mandam,sô por ter lustro e poder e fazem
e desfazem
ao seu antojo è comenència,travei intima amizade
com
J.N. o meu fantasminha camarada,tratam-me de louco e
de
alucinado e pretendem curar-me com umha boa dosis de
alienaçâo,como
se eu fose umha cobaia,que tâo sô reage aos
estimulos
dos sentidos e obra em consequeència à pautas
marcadas
por prèmio ao bom comportamento.
Por
todas estas cousas e outras que folga enumerar aqui e,
porque
graças a ti J.N.eu sou um homem feliz,è porque hoje,
desplegando
todas as minhas galas,graciosamente te convido
à
percorrer,participando da minha alegria,esse ditoso pais de
ensonho,donde
o bem e a bondade,dentro da mais estrita
justiça,
sâo a pauta rectora da sociedade e donde a liverdade
è
tanta que nem tendo a voz do trono seria o suficiente
para
à ovacionar!
67 68
Tristas
aqueles que consideram signo de dignidade
e perseverància,ao
que nâo è mais que a consequència
de
perpetuar o dominio atraves da ignorància e do
oscurantismo,por
parte do poder estabelecido e
consagrado.
Esto
eu rùmio,como o boi exerce a sua natural funçâo
de
digerir os variados alimentos que a terra mâe
lhe
oferece em estado natural para que o seu existir
perdure.Nâo
è facil esclarecer o que està turvo,quando
a falta
de conhecementos nâo nos permite alvejar a
fòrmula
capaz de conseguir a claridade,mas muito mais
dificel
se nos apresenta,quando a esta carència sumamos
a vontade
nâo confesada de confundir.
Digo
esto,porque dumha feita,J.N. o meu fantasminha
camarada,acercouse
a mim e assim me falou:
-Se
escutas atantamente,se estas sempre alerta,hàs de
reparar
que nunca falta quem observe que o oscurantismo
estabelecido
està por acima de toda cultura proivida.
Eis
aqui um exemplo: Quem coma ti escreve e fala è
um
bastardo! Quem ,como tantos,usa o mòdulo imposto
polo
poder alienante e o exalta machaconamente atè o
impoer,è
sem mais, um ìdolo capaz de fazcinar
rebanhos
e criar escola.
69-70
Podes
dizer-me,Oh meu bom amigo J-N Qual è a diferença
que
existe entre o sàbio e o poeta? O que os separa e poe
a um
no campo do razonal e ao outro no do irracional?
Acaso
è real essa apreciaçâo? Tem visos de verdade ou
è
mais
um tòpico,entre tantos,espalhados polo poder para
calar
a voz dos discordantes,dos que levam umha estrela
na
testa e com o seu reflexo explendoroso perturbam ao
imenso
coro de bajuladores que ao unìsono lhes elevam
Hosanas?
Dime meu fantasminha camarada!
-Entre
o poeta e o sàbio,tens que saber que sô existe um
verde
prado de flores eternas. Quando o sàbio se adentra
nele
e extasiado queda ante o deslumbrante expetàculo
que
a naturaleza lhe oferenda,torna-se poeta. Quando o
poeta
realiza o mesmo trajecto,transmuta-se em profeta,
mas
ei aqui que tanto um como outro,sempre serâo aos
olhos
do mundo,uns loucos.
Pois
que outra cousa è a poesia ou a sabiduria,mais do
que
umha sublime loucura que emerge do profundo
mistèrio
que a sàbia naturaleza oculta aos olhos dos
leigos?
-
Quem
quira entender que entenda!!
Ao
sàbio da-lhe o mesmo umha cousa que outra,pois
ele
bem sabe que alem disto.todo è vil poeira
e mìsera
vaidade!!
71-72
No
jardim das mil flores tem umha ocarina de pedra
que
se escuta noite e dia. Quando o vento sopra maino,
parece
o susurro dum neno ou o gemido dumha donzela
cansada
de pular pola campinha em flor.
Quando
bufa com còlera o àbrego,ressoa como umha buzina
prenhe
de graves sôns,que parecem emerger do mais profundo
da
terra como o laio dum gigante encadeado na cova do
reino
dos sem retorno.
Neste
jardim è donde J.N. mas eu,cavalgamos no crista dum
sonho
alvo e passeamos por infindas predeiras donde o verde
nâo
desaparece nunca,nem falta jamais umha flor para
atestar
o mistèrio sublime da vida.
Aquì
entre aromas fragrantes e nâo contaminados pola
concuspicència
dos que nadam na fartura,nôs progetamos
futuros
de paz e de amor para esta humanidade sem norte
e sem
esperanças.
Tamèm
as veces realizamos scenas que sâo a
delìcia
dos que como nôs sonham despertos. Certo que
as
nossas piruetas sâo impercebiveis para os mais,porende
os
que como nos devaneiam,gostam delas e sâo felices.
Sâo
poucos os tais,pero sâo os suficientes para encher
a alma
de quem como eu,sô conhece a doçura de
sonhar
com impossiveis!!
73-74
Dime
poeta: A donde vas correndo como um atordoado,
olhando
para um cèu ainda sem estrelas,nâo reparando no
cham
que pisas? Acaso perdestes o sem e andas alelado
a procura
das sombras que confomam as nuvens distantes?
Dime
poeta: Tem acaso eco o cantar dessa tua voz mimètica
com
que pretendes encandilar os ouvidos dos seres que moram
nestes
campos? Por ùltima vez te increpo: A que vem esse
alvoroço,essa
inexplicàvel agitaçâo,capaz de comover a umha
pedra
pero impenetràvel para o cidadâo acomodado e de
costumes
moito bem vistas polos rectores da sociedade
que
te nutre,? Dime!
-Em
verdade, nâo sei o que dizer,a nâo ser que,quem coma ti
jamais
entenderà a um homem que tem por seu camarada um
certo
fantasminha chamado,J.N. Que è este que lhe dà azos
para
sobreviver feliz num mundo de serpes.Que com ele
acha
o ànimo necessàrio para sorrir ante o triste espetàculo
que
oferece toda esta hipocresia que assola o pais e que è
ele
quem lhe proporciona a inspiraçâo suficiente para cantar
cantigas
dantes nunca ouvidas e laiar-se assim dos teus
sàtrapas
,meus verdugos. Nâo, Tu nâo podes entender,se
o entenderas,serias
mais ou menos como eu e isso nâo
està
bem visto em sociedade.
75-76
Nimguem
neste mundo que deseje fazer o bem
ou
que procure dirigir o povo pola senda da justiça
e do
amor,actua as agachadas. Aquel que tais cousas
pretende,mostra-se
ao mundo.
Quiças
fosse pola veracidade destas palavras que J.N.
o meu
fantasminha camarada se acercou a mim e assim
me
disse: O meu tempo jà se foi,porende,o teu ainda nâo
chegou,mas
eu sempre tenho a mâo o amor para combatir
o òdio
deste mundo. Ti se tastemunhas contra os renegados
do
povo. Se por mei das tuas obras mostras que eles sâo ruins.
Se
por a força da palavra consegues que os seus ouvidos
escutem
o que nâo lhes agrada,seràs vilipendiado e sofreràs
perseguiçâos.
Entâo o teu tempo,tamèm terà passado e seràs
como
eu,um simples fantasma, ainda que por circunstàncias
inespicàveis
para mim,conserves o corpo e a vida,mas em
posse
jà,desse poder regenerador da ensonhaçâo,atravès
do
qual poderàs fantasticamente oferecer aos que òdiam,
amor;
aos que desfalecem, alento;aos que cobiçam,
humildade;
aos que perderom a fê,iluçâo;e aos que
clamam
por justiça clarividència para imaginar.
77-78
Assim
me falou um dia J.N. o meu fantasminha camarada:
Dèixaos,nâo
desmioles a cachola! Sâo cegos e guias de cegos!
Escrito
està: "Se um cego guia a outro cego,ambos caerâo na
perdiçâo"
Eu
me estremecì,ante tâo cruel asseveraçâo,pese
a que a experència
da
vida,ensenhou-me entre outras moitas cousas,que o machacar
constante
das realidades frustantes,acaba minando a resistència do
mais
apto.Tâo aplastante è para o simples o peso da desiluçâo!
Foi
entâo que resignado e sem outro anseio que o de sobreviver
entre
tantas adversidades,apelei a ensonhaçâo e nela achei um
lugar
de
previlègio,desde o qual olho com pena,mas sem perder detalhe,
todas
as peripècies e cabriolas dos que tanto se afanam por galgar
ao
poder e tamèm,como se diverte o alienado,todo fechandoso,
indo
de acà para alà,como umha marioneta,ao entojo do que
move
os fios. È triste verificar estas cousas e o ter que as
espalhar
por este fantàstico mundo donde nascì e me criei.
È
penoso,sim,mas as tristuras da vida nâo desaparecem
fechando
os olhos,nem as misèrias do mundo deixam
de
existir imitando à avestruz.Nâo, as sequelas da
vida
perduram mais alà da fantasia!
79-80
Caminho
da morte,a um passo do mais alà tende o homem
a cavilar
e fazer balanço da sua longa caminhada. Nâo è
esta
umha exclusiva do homem.Lembremos o canto do cisne.
Sendo
assim,nâo è de admirar de que,ao botar contas,um
conclui
que tâo sô lhe resta,para oferecer como maquia,
ao
moinheiro que moe a vida dos humanos,um singelo
monlho
de sonhos aos que,por certo,considero de valor
ùneco,pois
o sonhar è um acto exclusivamente humano,
do
qual nâo participa nengum outro ser vivo.
Expliacarei-me:
O acto de nascer e morrer è comum a todos
os
seres que sâo portadores de vida; O acto de realizar
cousas
nâo
è privativo do homem. Olhem sô os ninhos dos pàssaros
ou
as tocas das das alimanhas etc..O acto de intuir, observar,
farejar
ou sentir,tampouco è restritivo dos humanos; O mesmo
diremos
do acto de crer ou ter fê.Se olhamos aos rebanhos,
logo
percebemos como aceptam ao chefe e o seguem atè
a perdiçâo.
Sô o acto de sonhar,parece ser previlègio
exclusivo
dos humanos. Sendo assim e achando-me
em
posse de tamanha bagagem de sonhos,preparado
estou
para a grande viagem e a modo de colofom,
direi
que là chegando,è que poderei saber ,para
o que
vale ser,o mais humanamente possivel,
humano...!!