POESIA em GALAICO-PORTUGUES
PARA O TERCEIRO MILÊNIO

Desde Santiago de Compostela
para o mundo
CHANKECHAM
Presenta em dominio publico
 
Incunàbulo impresso com tipos talhdos a mâo,
mas que por motivos de espaço sô pode apresentar-se
 algo deminuido e sem nitidez.
     
Eis aquì a musa de nome VIRGINIA que inspirou
a obra toda de CHANKECHAM

Bibliotecas donde se pode consultar este livro:Compostela-Catalunya-Autonoma de Barcelona-Deusto-N-de-Espanha-N-de-Portugal-K V K -Coimbra Leuvem-N-de-France-Humbolt-Tubingen-Oxford-Cambrige

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Este livo contem quarenta poemas em prosa,as orlas ,a ortografia assim como a
impreçâo e a encadernaçâoè responsabilidade de Chankecham
1-2
 

J-N. è um fantasminha camarada,a voz dos sem voz,
o amigo dos humilhados e ofendidos. O seu nomem
verdadeiro è Joâo-Nimguèm,mais gosta que lhe chamem
J-N. o mesmo que no seu mundo,nesse pais misterioso
e cheio de brumas donde moram os fantasmas.Sim,nesse
lugar etèreo,mas palpàvel ao tacto dos homens sensiveis
 as misèrias e tristuras deste mundo.

Um dia, de sùpeto,apresentou-se ante mim e com oseu
rosto risonho assim me falou:
-Nâo te asustes,eu sou teu amigo,sei das tuas cuitas
e vim a compartir contigo a canga do ser e nâo ser.
-Chama-me como queiras,mas eu sou J-N. o Joâo-Ninguèm
deste e do outro mundo,mas para ti serei sempre um
fantasminha camarada.

Desde entâo somos inseparàveis,somos o que somos
e nâo tem mais definiçâo. Esto è assim porque os sonhos
as veces tenhem menos mistèrios que a vida mesma e
este è um sonho elevado à categoria de realidade,como
se a vida fosse umha perpètua ensonhaçâo.

A Rosa dos ventos nasceu dumha iluçâo e aì està a
marcar o norte dos sem esperança,dos aflitos e dolentes.
J-N. è essa Rosa imaginada que alumea como umha
estrela na mâo piedosa do suplicante.
3-4
 

Desde que o homem apareceu sobre a face da terra,
sempre teve momentos de felicidade e de amargura,
esta acaparou sempre a maior parte ao longo da vida
e hoje como dantes nâo o è menos,daì que os tragos
amargos sâo tantos que sô podem ser levadeiros
atravès do sonho.Um sonho que o ideal deteste mas
que a realidade impoe.

Que seria de mim,se nâo me atopara,no medio deste
imundo lamaçal donde o corrupto è louvade e o
lambiocas invejado,com J-N.o meu fantasminha
camarada? A donde se iriam espatifar os meus osos
se nâo tivese a sua mâo amiga para guiar os meus
passos por este incerto pais de trampas?

Quando com ele caminho,colhidos da mâo, sinto
a caricia da felicidade e penso: Serâo,acaso, tâo
felices aqueles que vâo gozosamente acomodados
na carroça do poder ou do trinfo? Dime ti,
Oh meu bendito amigo!

E J-N. deste jeito me falou:-Sim, a criatura domada
sempre è ditosa ao lado do amo.Repara no câo e
olha como pula e move o rabo ante a presència do
 dono! O triste è aquele que quer voar e nâo tem
alas nem ilusâos!!
5-6
 

Um dia nâo moi longinquo,sonhei que numha sô
aperta poderia abraçar a todo um povo,dando-lhe
a uns feliciade e alento a outros

Ai de mim! aquel ideal tolo,mostrou-me o que
jamais ninguem precisa saber;o como picam os
espinhos e de que jeito escozem as urtigas.

Agora que te tenho a ti,J-N.como meu companheiro
e amigo,posso jà sonhar como entâo,mas sem
preocupar-me da dor? Dime se ao teu lado,posso
abraçar ao mundo todo sem perigo?

-Olugar de donde eu venho,està cheio de seres
como eu,os bons andam ceives por todas partes,
os maus arrastam cadeias e os perversos nâo se
podem mover,tal è o peso dos seus grilhâos,
equivalente aos seus pecados.

Eu,nâo entanto,adquirì o estatus de fantasma sendo
pequeninho e inocente e se tenho a vantagem da
pureza sem màcula,nâo possuo a sapiència dos
adultos que sendo bons e generosos,estâo em toda
parte donde querem,aconselhando ou inspirando
aos nobres mortais.

De mim nâo esperes mais que a frescura dum
tènue suspiro.Eu sô tenho para oferecerte,o sorriso
da sinceridade e pode que seja moito pouco para
quem tanto espera e atè inutil quando nâo
pernicioso para mais de um,mas è tâo grato
aos puros de coraçâo!
7-8
 

Atè donde me levarâo os meus passos? Se eu
tivesse alas como as andurinhas,voaria atè o infinito,
mais ei aqui que tenho um corpo pesado e torpe,
atado a terra que o alimenta.

Sô a alma atravès do ensonho pode apascentar
 nos verdes campos da iluçâo e alì flutuar no encanto
das boas intençâos,pero nada mais,jà que a realidade
è outra e teimuda.

Por isso tanto eu quero e apreçoa J-N.o meu
fantasminha camarada.Com ele a minha vida
è umha dita,pois o irreal torna-se real para meu
contento e felicidade sua.

As veces paroleamos e sorrimos brincando como
duas zagalas no verde prado à perseguir umha
vistosa borboleta.Eu medro na ditosa hora em que
estamos juntos e nâo è para menos,pois que J-N.
tem sensibilidade de abondo para fascinar
 umha pedra.A mim enlaiado me deixa
 quando escuto a sua voz.

O outro dia falou-me assim:
-Eu que estou privadode sustància corporal
e sei desenvolver-me à perfeiçâo no espaço mental,
moito mas amplo,a vez que arquètipo sustentador
de todas as cousas,polo poder da palvra,na que o
espiritu botou as mais fundas raizes,pena sinto
dos desleigados da fala quando mergulham
na negra fossa do poder.

Escutando esto estremecì,mas ele logo sorriu
para mim e logo esquecì.
9-10
 

Tenho umha fè cega no perdâo de Deus e isso
 porque,quem mais que o falto de valor para afrontar
os problemas que fazem deste mundo um lugar de
desdita e expiaçâo è merecedor da sua graça?

Este è o meu caso,posto que nâo tenho vocaçâo de
martir,nem aspiro neste mundo ao posto de redentor.
A minha capacidade de acçâo e projecçâo nâo vai mais
alà dos meus suspiros.

Hoje,se nâo tivesse ao meu lado à J-N.o meu
fantasminha camarada,creio que morreria! Tâo
necessària è para mim a sua presença que jà nâo
percebo a realidade como ela è senâo como ele ma
apresenta,de jeito que se me calùniam ou perseguem
por cousas desta terra nâo me enfado nem sofro por
elo,pois jà bem me tem dito J-N. o como e de que
jeito assim forom tratados todosos antergos
petrucios,mas bem conhecidos polo bom povo
como os precursores.

E nâo sô eu creio na sua palavra,è o seu olhar,
que quando fala tem tal meiguice,que precisaria
nâo ter olhos para nâo enxergar a doçura da sua
alma ainda em flor,e ante sentimento tal,quem se
resiste a nâo continuar polo mesmo vieiro ainda
que esteja semeado de trampas e de espinhos.

A fè ainda que cega,è sempre humana e de
humanizar a vida è do que se trata.
11-12
 

Abençoado sejas,Oh meu bom amigo J-N.
Fantasminha camarada!Pois que,no encanto da
tua palavra,acho alentos e folgos de abondo para
continuar as lavouras que umha mâo invisivel
me indicou.

Quiçais que nâo poidas,mas ainda que puderas,
jamais me des riqueza nem poder.dame daquelo
que è mester para caminhar pola senda do bem,
nâo seja que farto e soberbo te diga: Quem
eresti? Para que te quero ao meu lado
se fostes criado por um mìsero sonho?

Nâo,dame amor e dosura para que jamais
seja um blasfemo,ou que em nome do criador
te repùdie como a um apestado.

Eu quero ser como sou e se puder cada dia
mais puro na humildade e terte sempre de
companheiro,tanto de dia como de noite
e que a minha andaina jamais se aparte
da tua candura,do teu olhar meigo
e dessa tua voz que em nada se
diferència do cantar dos anjos.

Nâo,nâo pretendo eu possuir laudas nem
glòrias,sô me basta um peito que seja jacigo
dum coraçâo tal que nâo caiba despois de
 morto em tùmulo algum,que seja tâo grande
e portentoso como o teu olhar inocente
ou o sorriso dumha flor
ao nascer.
13-14
 

Nôm tem nem um sô dia em que nâo fale com
J-N.o meu fantasminha camarada.As veces falo
das alegrias da vida,outras das tristuras e momentos
amargos que nunca faltam aos mortais.Com tudo,
nâo è raro que o mais das veces me refira a algum
problema que aflige ao povo e que de facto tem
cura,ou quando menos compostura.

Tal foi que um dia,deste jeito falei para J-N.
Dime amiguinho: porquè,ti que podes,ou a mim
assim mo parece,quando te achas ante tantos que
sofrem a vassalagem dos fortes e poderosos,
nâo te acercas a eles e os despertas desse
sono que os tem encadeiados ao nojento
mundo do servilismo?

Atè o ponto que tudo soportam em troques
dumhas migalhas e vâo pola vida a diante como
sonàmbulos,todos felices de nâo ter inquietudes
nem desassossego.Fala-me desto!

-Eu jà te disse,que nâo tenho entendedeiras como
os maiores do meu mundo,mas ainda assim,
intuio que quando o povo dorme deve-se
deixar dormir,a nâo ser que se tenha a
certeza de que està a sonhar com
a liberdade.

Sô quando esto acontece è que se deve abanar
a àrvore para logo recolher o saboroso fruto.
Mas,ao que eu sei e ante o que olho,nâo
 se dà este caso,nâo.O povo dorme
sossegado.Descanse em paz!
15-16
 

O dia em que vi com os meus olhos,como as mâes
em vez de educar aos seus filhos os estupidizavam
e aos pais,que tenhem a obriga de os ensinar,
ocupavan-se em os domar,juro que desejei
morrer e que pedì a Deus que fendera a
terra para que me tragara.

Tal foi o meu desencanto e amargura,que ainda
hoje tremo ao pensar que devo persistir no
 projecto de vida que a providència
me ditou.

Abensoado sejas sempre Oh J-N. meu fantasminha
camarada! Pois que por teu favor esqueço essas
amargas vivèncias e podo livremente sumergir-
me nesse prodigioso mar de esperança que
me oferendam o teu meigo olhar e
sorriso inocente.

Com os quais posso resurgir feliz ao ansiado alvorar
dum futuro,que hà de emergir irremediavelmente
de tanta imundice,a que a jeito de esterco
server-hà para adubar os melhores
frutos do porvir.

A grande verdade è que por mui experto que seja o
 semeiador,jamais farà que floreçam os virginais
prados em pleno inverno,mas ante o teu olhar
sincero e prenhe de candura,eu creio que
atè as pedras podem parir umha flor.

E se assim è como penso,dou por sofrivel a sanha
com que o destino me atossiga no meu passo
pola vida,em troques da feliz dàdiva que
para mim representa a tua
assistència.
17-18


È com o esterco do presente que se hâo de adubar
os frutos do futuro. Pensar que a terra vai ser um
ermo sô porque o homem è um cretino,imbecil
e corrupto,è nâo ter senso e perder as
coordenadas da vida e
da història.

Os grandes mostrengos de outras eras findarom
pola capacidade que tinham de devorar,mas os
seus corpos putrefactos,servirom para estrumar
as terras nas que mais tarde germinarom
as mais variadas formas de vida.

Com estas apreciaçâos,posso adiantar que todo
o que hoje os meus olhos atopam como impuro
e decadente,hà de se converter com o tempo
em fonte de nova saiva fecunda.

Mas esta anàlises posso-a realizar graças à
presença constante de J-N. na minha vida. de jeito
que,a pesar de nâo ser mais cousa que o fruto dum
sonho tardio,è para mim e o meu conflitivo viver,
como um cèu aberto ao futuro e a esperança.

Sem este meu fantasminha camarada,o meu destino
nâo teria outra rota que à dos grandes bichos papâos
devoradores de energia e com elo à auto-destruiçâo.

Graças a ele,podo flutuar no etèreo mundo da fantasia,
nessa ficçâo que dà o poder de engendrar ideas novas
e felizes,muito em especial para as almas puras,
desses que sempre forom chamados,com muito
acerto,os Santos Inocentes.
19-20
 

Nengumha cousa neste mundo me arrepia tanto como
olhar a essa legiâo de adoradores e aplaudidores do
poder.Sumisos devotos da religiâo mais estendida
sobre a face da terra: A do servilismo ao
bezerro de ouro.

Que triste tem que ser a vida desses que jamais forom
capacer de discernir entre a ilusâo e a realidade,entre
 o ensonho e o cotidiano,entre o fantàstico e
o possivel e se deixam arrastar pola
correnteza das aparèncias,magma
corruptor de toda alma indefensa!

Penso que,se cada criatura das que me refiro,tivera
ao seu lado um J-N. como eu tenho,para lhe limpar
as teias de aranha que cobrem os seus olhos e
lhes desentupir as orelhas da nojenta sera que
o tempo foi pousando,creio que poderiam
enxergar bem mais alà das suas narices
e reconhecer ao instante o vil canto
de sereia que os atrae.

Um fantasminha como J-N. pode realizar milagros,
nunca dantes vistos e fazer com a sua palavra que
qualquer mortal desperte dos fraudolentos
sonhos,que umhas caracolas artificiais
produzem na mente do homem.

E isso porque J-N. è como umha refrescante brisa,
que fai desaparecer o brilho das oropèndolas.
È o amor,feito esperança,na voz da flor
que se transforma em fruto.
21-22
 

Nâo è por um mundo bucòlico que o meu coraçâo
late,nem pola paz dos cemitèrios que minha alma
suspira,nâo,è por essa grata satisfaçâo de olhar
ao vecinho sorrir como quando nenos,pese a
terem sido piores tempos e ao proximo,
desfrutar da hora presente,no seu ir e
 vir para donde as obrigas o levem.

Tâo grande è o meu anseio de olhar a felicidade
do povo,que atè esqueço de eu mesmo ser feliz!
Ao par que,como pode um ser ditoso arrodeado
de tanta tristura e carantonha?

È-lhe possivel ao ser sensivel com os problemas
dos semelhantes,desfrutar das alegrias da vida,
quando as houber,se ao seu lado e no seu
caminho sô acha mendigantes ou tùsaros
de cara osca e sòrdida,carcomida
pola cobiça ou a luxùria?

Nâo è possivel .creo eu e em base a esta crença è
 que acho nâo ser quimera,a felicidade autèntica
de quem tem por amigo à um fantasminha
camarada,com quem se pode parolar
em fraterno e alegre trato.

Sô assim,as horas da vida passam ledas e cantarinas
como a sonata dum regato,sem contaminar,que
 desce pola ladeira da montanha donde
todavia aninha o mirlo e trina
o ruissenhor.

Ditoso aquel que ainda nâo renunciou ao sonho e
tem capacidade para entusiasmar-se com a
fragància dumha simples flor.
23-24
 

Antes de conhecer a J-N. esse maravilhoso fantasminha
camarada,que veio do misterioso pais das brumas,
eu era um dos homens mais infelices do mundo.

Tâo estùpida era a minha existència que quasi se poderia
comparar com a dos cretinos que vâo de aquì para acolà,
sô por aparecer ou dar-se a valer,nâo por eles ou a sua
pessoalidade e sim por o lugar donde se encontram.

Si se està rodeado de borregos è impossivel que nâo se
recolha o cheiro do sebo que os fai reluzir ao sol.Nâo
se pode viver numha esterquira sem feder à
imundicie que a compoe.Por isso eu era
tâo infeliz!!

Agora,sem mais,sou outra pessoa e jà tem quem anda
dizendo que tive de achar um oculto tesouro que
ninguèm conhece,ou que a fortuna me foi propicia
e encheu o meu peto de dinheiro e que por tal sou
ditoso e vivo sorrindo e felice como se este
mundo fosse um paraiso.È possivel
que tenham razâo!

A verdade è que desde que privo com J-N. nâo
tenho outra cizanha que a que me pode advir
dumha possivel falta de saude,fora isso a
minha vida è como um rio de contentura
sem mais cascadas que as precisas
para entoar loas ao criador
de todas as cousas.
25-26
 

As minhas loas nâo sâo para os que mandam ou
detentam o poder,nem para os fàtuos deste mundo,
nâo,as minhas loas sâo para o que fez a àrvore ou
a plantou,para o que deu voz ao ruissenhor ou para
quem o protegeu,sâo para Aquel que fez brotar
os riachos e para quem nâo os contaminou.

As minhas loas,se algo valem,sâo para dignificar aos
esforçados em paliar a dor dos dolentes,ou aliviar
a carga dos que sofrem a canga da vida,para
dar voz aos que nâo podem falar e coragem
aos dèviles,para esses e para todos os
rebeldes do mundo sâo as minhas loas.

E agora junto a elas o sorriso e a olhada tenra
deste bendito fantasminha camarada com que
Deus me agasalhou,unindo a minha voz a
dele,para aos verros,denunciar bem
alto as injustiças que assolam
aos deserdados da terra.

O outro dia,ao unìsono bradamos assim:
Oh ti, a quem o òpio do mando ensurdece e o brilho
do ouro cega,escuta o que nôs pensamos em voz alta
para que toda a humanidade se entere.

Nôs,afirmamos que umha loa ao poder è
 como umha dentada no coraçâo do
oprimido,que è,como roubar-lhe
a paga aoque volta do trabalho
ou o pâm ao que vem
de semear a terra!
27-28
 

Quando era pequnino,tive um deslize e caì ao rio,
se nâo tivesse passado por alì umha alma piedosa,
eu seria agora umha lembrança perdida na memòria
 do meu povo.Creio firmemente que a J-N. lhe sucedeu
como a mim pero sem ter ao lado a mâo bem feitora e
entâo sucumbeu.

Hoje è o meu fantasminha camarada,quizas por o simil
das casualidades,mas ei aqui que o seu amor,inocència
e bondade è tanta,que nunca teve ciumes de o seu sino
ter sido tâo diverso do meu,de tal sorte que atè mim
chegou sô para oferendar-me o seu carinho e a sua
alegria,movido tâo sô polo sentimento fraterno que
une aos humanos e os diferència das alimànhas.

Seu destino foi sucumbir ante os fados da vida
mas nâo claudicar da sua condiçâo de criatura
humana ainda nâo pervertida.

Confeso que polo seu alegre comportamento
e essa meiguice,ingènua umhas veces,atrevida
outras,è que me sinto o mais feliz dos mortais.

Com ele eu falo e teimo,e moitas sâo as horas que
passamos brincando entre as humildes ervinhas,
que tenhem por teito a bòbeda do cèu e por fala
 o suspirar do vento.Com el eu rio e canto como
 riem as ondas rebulideiras e cantam as lìmpidas
 àguas ao caer sem màcula sobre a crista
 desta minha boa estrela.
29-30
 

Que dasditado tem que ser o povo que nâo sabe
elevar a voz a nâo ser nos funerales para laier-se.
Triste do homem que tâo sô nos cemitèrios,ante as
tumbas,mostra apreço aos semelhantes.Desventurada
a naçâo que para identificar-se,espera que lhe ponham
como mansa ovelha a espada no pescoço.

Ai de mim,que tais cousas tenho que testificar,pois
ante os meus olhos sô acho arrenegados,desleigados
ou espiritus serviles,capaces de vender a sua alma por
um mìsero posto bem renumerado ou de alto topete!

Sâo os tempos que me tocou viver,a mim e a J-N. o
meu fantasminha camarada,êpoca escura e pestilente
na que nâo tem outra possivilidade de viver
decentemente se nâo è remontando-se aos
mais altos cùmios das nubens negras que
ensombrecem a terra neste fim de milènio.

Nas alas da fantasia,nôs atè là galgamos e là
construimos um pequeninho alvergue para os dous.
Alì somos felices,o quanto è possivel o ser aos
humanos nos dias que correm.

Umhas vaces cantamos e sorrimos,outras,repousamos
em silèncio,mas quando nos lembramos dos tristes
e desafortunados deste mundo,choramos. As
minhas bàgoas sâo como croios,as de J-N.
como pètalos de rosa!!
31-32
 

Nâo hà moito tempo,estando eu sentado na praia,
olhando as ondinhas que mansas vinham a beijar
a humilde areia,reparei que de tantas e em todo
o tempo nem umha sô, se revoltou e virou em
contra da força que a todas arrastava ao mesmo
fim:A morrer bicando a terra infecunda.

Meditei sobre o assunto,e me estremecì,sô em
pensar que talvez fosse eu um homem de moral
errada,que nadando polo mar da vida,sempre
contra correnteza,emulava aos hipòcritas que
fingem umha moral que nâo possuem.

Acaso todo quanto me rodeia està equivocado
e no certo eu? Serà que entre tantos,sô eu tenho
a estrela que indica a rota certa do bom proceder?
Eis aquì que estando nestas cavilaçâons achegou-
se a mim J-N. o meu fantasminha camarada e
assim deste jeito me falou ao ouvido.

-Nâo desesperes,sosega.A vida e o mundo nâo
è sô este instante nem este lugar. Olha a imensidâo
do cèu e comparao contigo e com este recanto em
que estas a meditar.Verdade que nâo tem
comparança? Que nâo tem assimilaçâo?

Assim è a existència e o mundo,mas lembra sempre
que o ruissenhor quando canta nâo se planteia
tais disquisiçâons!!
33-34
 

A sombra dum velho e retorcido carvalho,
achava-me eu absorto com os meus pensamentos
e admirei-me de olhar na insignificante erva o
mesmo germo de vida que no gigantesco àrvore.

Deducì entâo,que o criador dotou a todos os seres
do mesmo estigma de vida,assim que,quando modelou
ao homem ao mesmo tempo surgiu a pulga e com ela o
 mistèrio,pois nâo tem dùvida que ante os òbices que
 existem na terra,um se espanta da capacidade que
tem este insecto,tanto para saltar como para sugar
 o sangue dos outros,maximo se apreciamos
que està isenta de cerebro.

Eis o enigma: Se o homem tivesse tal capacidade,
atè donde chegaria o seu desatino,supondo que
conserva-se as manhas das que mostra gala?

Eu nâo pude responder,mas J-N. que sempre està
 ao meu lade aclarou-me:-Se reparas na vida dos
 humanos logo cairàs na conta de que mais de um
  mostra tal capacidde para sugar o sangue dos
  seus semelhantes e tâo pouco sem,que nâo
è de estranhar que a ciència cale
ante tal prodigio.

-As misèrias do mundo dâo fè do que digo e se
duvidas desce à terra e deixa as estrelas!

Assim de facil responde a inocència as grandes
preguntas,com duas palavras e um pouco de
sinceridade.
35-36
 

Jamais pensei que um dia havia de falar
com a parede e a o mesmo tempo ser feliz.
Nem pola cachola tal cousa me passou noutros
tempos,mas agora,afeito a J-N. jà nâo sou
capaz de suportar umha conversa com
os meus semelhantes.

As veces esforço-me por comprender aos que
me rodeiam,mas nâo posso,nâo sou capaz.
Outras,sou eu quem diz algo e nada,a minha
palavra soa como se for dum homem doutra
galaxia ou de outra era.

È inutil,toda a minha bontade escacha-se contra
umha terca realidade que nâo tem jeito de amolecer,
mas ei aqui que quando atopo umha flor perdida no
monte,ou um humilde prado escondido no bosque,
ou me acho ante umha posta de sol a reflexar-se
na ria,ou na fraga a carom dum regato donde
o moinho ainda move a roda,entâo eu
comprendo o mistèrio da vida e leo
como num livro averto a sua
mensagem.

Tamèm,quando vejo sorrir umha criansa ou aspiro a
tènue fragància dumha adolescente ainda impùbere,
eu reverèncio a majestosa sapiència do criador e
 agradeço a sua bondadepor me ter dado,sem o
 pedir,a inverosimel idea de falar com essa
parede donde sempre inefavelmente
se acha J-N. o meu fantasminha
camarada,com o qual eu sim
que bem me entendo.
37-38
 

Que tem cousas que se podem melhorar nâo è
nengum segredo.Que a vida dos humanos conheceu
èpocas peores è por todos reconhecido mas,a verdade,
esso que se diz,a certeza quimicamente pura dos feitos,
fastos e vivèncias da humanidade,ninguem pode
pavonear-se de amostrar a sua fòrmula e
moito menos à demostrar.

J-N. o meu fantasminha camarada,as veces insinua
algumha que outra pista,diz atè aqui nuns pontos e atè
alà noutros.Sempre fala,parolea,mas jamais afirma
que progresar seja melhorar o passado.Nâo, ele
dà voltas e mais voltas a roda da dùvida e
nâo se conforma com fòrmulas puras
e muito menos com preposiçâos
complexas.

È um autentico paradigma da especulaçâo,ou se
melhor assim se entende,um iluminado das ilusâos,
mas no fundo,tudo reverte em dar a entender que
o grande projecto de vida,o verdadeiro comportar-
se no dia a dia,consiste em caminhar cara o futuro,
sem vacilaçâos nem quebradeiros de moleira.

O essencial,segundo o seu parecer,è caminhar pola
senda do porvir atè dar com essa nova geraçâo
que hà de recolher o testigo do nosso
passo pola terra.
39-40
 

Nâo tem duvida que a maior razâo pola que reneguei
de todo e de todos,assentase na terrivel verificaçâo
de que os poderosos e os fortes,crêem firmamente,
que tanto o Sol como a Lua e as estrelas do Cèu,
sô reluzem nos seus cofres e que nâo se
ponhem senâo nas suas arcas.

Esta amarga certidâo,causou em mim tal efecto que
desejei morrer.E assim sucederia se J-N. o meu
fantasminha camarada nâo o impedira com a
sua candura e inefàvel sorriso,adoçando as
minhas horas amargas e dando-me as
forças necessàrias  para afrontar
umha vida que detestava.

Sim,desde entâo,eu perdì o senso da realidade e
vivo como a voluta de espuma,na crista das olas
que,ainda que furioso o vendaval,ao as estoupar
 cotra os penedos,nengumha dor lhes produce,
pois elas,etèreas e flutuantes,sobressaem
por entre os àsperos rochedos e vâo
voando,voando,atè pousar as veces
numha moita de flores,outas,na
cabeleira sedosa dumha
 donzela e o mais das
veces desaparecem
no infindo azul
do Cèu.

Esse Cèu que tem por manto um firmamento
cheio de estrelas,sem amo,dono ou senhor.
41-42
 

Pretendì eu um dia,saber de J-N. se era certo que
umha vez morto o corpo a alma tamèm morria ou
prdurava;de facto,um fantasma,deve-se entender
como um espiritu ou alma jà ceive do corpo,mas
sendoJ-N. desses que nunca dizem claramente
a verdade,senâo que a insinuam,quisse eu
certificar-me e teimei na pergunta.

Entâo ele,respondeu-me entre sorrisos e
 gargalhadas,deste jeito enrevesado:

Olha para ti mesmo e imagina-te que em vez de
corpo animal estas constituido de matèria vegetal,
como as àrvores.Repara que creces como umha
planta qualquer,que florecem os teus galhos e
que logo de que a flor morre a semente fica,
da qual brotarào outras àrvores ou plantas
exactamente iguais do que ti e assim por
os sèculos dos sèculos e mentras a
vida exista,ainda que dela se
perda a memòria.

E se esto è certo como assim parece,para què
duvidar se em troques nâo se apresenta umha
alternativa com visos de certeza!!

Ouvido esto,meditei por um tempo e tirei a
concluçâo de que o mais ùtil e agradàvel para
o homem è escutar o mirlo do vico dourado a
cantar là no alto da cerdeira e a poder ser,
acompanhado dumha zagala dessas que a
natureza dotou da beleza necessària
para enfeitiçar atè umha fera!!
43-44
 

De tantas cousas maravilhosas que tem neste mundo,
quiças que a mais bela seja a capacidade que tem o
homem de sonhar.

Imaginemos e isto jà è apelar para o antes exposto,
um povo sem capacidade para à alegria,tristonho e
sempre mal-humorado,que nâo tem aptidâo,por
 insensivel,para chorar as suas màgoas nem as
dos demais.

Atinemos agora com os sàbios e doutos,autènticos
expoentes da èlite desse povo que nâo e capaz de
sorrir a gargalhda,ao par que è impotente para
cantar e foliar como o que mais.

Tamèm podemos fixar-nos para os que cheios de
glòria,fortuna ou poder,nâo sâo capaces de
inclinar-se ante a inocència dum neno,jà
porque o pesso das suas alforjas nâo
lho permite,jà por temor a sujar ou
quebrar as dèviles plumas de
ouropel.Juntemos tudo esto
e logo teremos o germem
das misèrias todas
deste mundo.

Quando eu palestro com J-N. sô fago arrenegar desse
maldito costume,de jeito que nas alas da fantasia e
colhidos da mâo,vamos bogando ledos e sem pausas
por esse imenso mar que è de facto a negaçâo da
realidade,mas que atesoura no seu seio a
semente sempre fertil,dumha existència
plena de felices horas,belos alvores e
 sustanciosos momentos de amor
e gozo sem par.
45-46
 

Um dia visitei um cemitèrio e pasmado fiquei
de ver tantas tumbas enfeitadas menos umha,
que as ervas silvestres tapavam.Tentei descobrir
de quem era aquel tùmulo,pero em vâo,nâo achei
nem làpida nem signo algum de alma que
um dia viveu entre nôs.

Estava eu moito triste e apesadumbrado quando
veu ao meu lado J-N. e garimosamente ma falou:
Tens que saber que quando um poeta morre o
idioma fica òrfâo,por isso,aquì neste nicho,nâo
acharàs lembrança ou epitàfio algum,sô podes
achar em qualquer momento a outro poeta
ajoelhado a chorar laiando-se polo idioma
abandonado e despreciado.

E isto porque o povo,manipulado polo poder,
sô se pergunta:para que serve um poeta?
-Para nada,responde o poder,se nâo è
para cantar os fastos gloriosos dos
que ordenam e mandam!

Sendo assim o que estranhar-se de achar o
tùmulo comesto polas silvas,se este è o
 fim certo do que nasceu para cantar
o amor,a virtude e a verdade!!

Esta è a coroa com que se premia ao bardo
que loa a justiça,clama por a liberdade e
denùncia com o seu brado a
podredume deste mundo!!

Vem com migo,vamos brincar ao prado,que
ti nâo eres poeta,Tu eres como eu:
Um fantasminha grandalhâo
e nada mais...
47-48
 

Que triste tem que ser a vida de aquel que
envès de olhar por os seus olhos,sô enxerga
com as lentes do amo e senhor.

Pobre do que na sua pitonhice e surdeira acha
sô beleza na presència do triunfador,doçura na
voz de mando,melodia no som das joias ou no
retintim das moedas e sapiència na petulància
do ensoberbecido polo poder ou o exito.

Que oca tem que estar a sua mente
e que podre o seu peito.

Por esto è que tento perdoalos nâo os exculpar,
pois que no fondo nâo obram com bontade prôpia
e sim como autòmatas ou bonecos a jeito de
marionetas ante um pùblico de paspans.

E com que direito posso eu condenar a uns seres
que para seu mal e perdiçâo o destino negou
a vista mas outros sentidos!

Mesmo eu,que sou o mais agraciado dos mortais,
desde que o Cèu me regalou com a presènça de
J-N. o meu fantasminha camarada!

 Eu que com tal companha posso viajar a outras
galàxias,penetrar nas abismales profundezas
dos ocèanos e adentrar-me nas recònditas
covas da fantasia e da iluçâo!

Nâo,eu nâo podo nem devo,desde o meu posto
de previlegiado do destino condenar a ninguem!
Eu sô devo alavar e agradecer a Deus,por me
ter concedido esta maravilhosa dita de
poder sonhar a prazer!
49-50
 

Passavam ante mim as multidâos todas em
procissâo e intentei unirme a elas para seguir
aos que caminham e nâo ficar parado olhando
como passam os que andam.

Tive um impulso desesperado de unir-me a todos
como um mais e seguir aquele sendeiro para
mim desconhecido e impreciso;mas ei aqui
que nesto apareceu J-N. e ao par que
me retinha assim me reprochou:

-Estàs tolo? Nâo ves que essa è a santa companha
dos conenados por corruptos e serviles? Nâo te
das conta de que esse è o rebanho das bestas
humanas hipnotizadas pola cobiça e o
poder do dinheiro?

-Acaso nâo escutas os seus cantos  todos em
alabança ao poder e os seus rezos,que em forma
de pregària,invocam sumisos ao becerro de ouro?
Caminhar caminham, pero para a perdiçâo!!

-O teu caminho è outro,nâo tem folias nem aplausos,
nâo està alfombrado de pètalos de rosa,nem alumeado
por os fogos de artefìcio,nâo, a tua senda è àspera e
 abrupta,acà um um espinho,acolà um tojo e mais
alà umha silva,mas,è seguindo esse vieiro que
acharàs o jardim maravilhoso donde se
 esconde toda a sabiduria do mundo
e toda a glòria de Deus!!
51-52
 

Matinando estive por moitas vegadas a cerca da
naturaleza das debilidades humanas e confeso
que jamais fui capaz de tirar concluçâos firmes,
ou quando menos decentes de apresentar,
nâo,sô achei duvidas e incertidumes.

O homem sàbio,pode ser feliz,mas nâo acha a maneira
de melhorar o mundo com a sua sapiència e menos
com a palavra.Devil è a sabedoria ante a imponente
teimosia da realidade! O bom e generoso,pode fazer
quanto bem queira e dar mostra de sua bondade a
carradas,mas,jamais regenerarà a um estùpido
nem endereitarà um torto de tanto inclinar-se
ante os poderosos.

E o poeta! Que pode com o seu canto entre ao clamor
e a balbùrdia dos que aplaudem e gritam hosanas e
glòrias ao ìnclito triunfador neste campo de
 batalha que è a vida? Nada!!

Ante estas divagaçâos,J-N. achegou-se a mim e
falando-me ao ouvido,como o que teme que ante
o estrondo das multidâos enfervorecidas nâo
 seja escutado,assim me disse:

-Repara que o poeta nâo opina,sô canta e sorrì,
de tal jeito que a sua voz por devil que seja,
chegue ao coraçâo do povo como um
 bàlsamo de amor e o seu sorriso
como umha brisa que acarìcia
um rosto sudoroso de prazer!
53-54
 

Tem veces em que as horas da vida sâo menos
amargas que outras;umha destas vezes foi
quando passei umha longa temporada
matinando com a valor das cousas
deste mundo.

Moitas e diversas sâo as que os humanos tenhem
em grande apreço e por mais de umha,infindos
forom os que derom a vida por as conseguir.

Esta è umha realidade inquestionàvel e entre os
amantes,numerosos sâo os casos em que por um
suspiro laguideceu e logo morreu mais de umha
donzela,ou que por a olhada garimosa dumha
  garota enamorada,tal ou qual galâo perdeu
o juizo e pateou coma um ruissenhor
fascinado pola beleza dumha rosa.

Todo isto passou pola minha cachola e tamèm o
para  què vale o poeta neste mundo e para o
què serve a poesia numha sociedade servil,
massificada e cobiçosa?

Acaso tem sentido para esta escòria humana,
a beleza dumha carroucha em flor ou o canto
do mirlo do bico dourado,là no alto da
cereijeira?

As minhas cavilaçâos findarom quando J-N.
me espetou deste jeito:-Sosega amigo,o dia
em que morras,as tuas perguntas hâo de achar
 resposta.Esse mesmo dia eu te ei de dizer o para
què vale um poeta e o para o què serve a poesia.
Tamèm te direi porquè o seu canto perdura
no tempo alem da història.
55-56
 

Quis ajoelhar-me e nâo pude,
os meus olhos sô reparavam naquelas mâos
cheias de ouro,pechadas e aferradas como
peto de avaro.

Intentei escutar os seus cantos e as suas plegàrias
e foi-me impossivel,tinham a boca chei de manjares
baboseando o prebe que o guloso è incapaz
de reter.

Pobre de mim! Naquele momento que tanto,
precisava dumha mâo amiga e dumha palavra de
consolo,sô achei a pancada que vem de nâo sabes
donde e que te deixa em nengures.

Bendito sejas ti,Oh J-N! meu fantasminha comarada,
que logo chegaste ao meu lado e com deligència e
ternura sem fim,realizaste o milagre,de que um
morto para a vida resuscitara para o mundo
da fantasia e da iluçâo.

Nâo posso esquecer jamais aquel instante sublime
em que me olhaste com esse lànguido olhar de neno
que ainda crê no seu ìdolo e logo,como a caricia dum
cèfiro prenhado de fragàncias virginais,falaste para
mim de jeito com que eu entendera e logo pudera,
com as minhas pròpias forças,erguer-me e começar
a caminhar por esse maravilhoso paraiso que um
dia o home perdeu,mas logo recuperou polo
poder da imaginaçâo.
57-58
 

Ai de aquel que tâo sô pode olhar o que revela a luz
e escutar o que anùncia o sôm! Pobre criatura!Pois nâo
passa de ser um cego que mora num lugar chamado
"Boa vista" e dum surdo assiduo frequentador  de
espetàculos donde sô se producem ruidos.

Ven-me ao magim estas reflexâos,polo quanto pode
parecer um ridìculo ante aqueles que reparam em
como podo eu falar com um fantasma,teimar com
ele e divertir-me como um enano se diverte
 com um coelho domestico e cautivo.

Creio sinceramente,que nem um sô deixarà de
 pensar que estou mal do coco e que o meu
 desequilìbrio nâo tem cura.

Serà que o destino de todo imaginador è passar por tolo
 aos olhos dos demais? Acaso è esse o signo maldito de
todo aquel que foge aos mandatos do poder alienante?
Serà que o nadar contra corrente è um sinal de
debilidade mental,assim como  è de lucidez o
arrimar-se ao sol que mais quenta?

Nâo sei,nem jamais saberei,atè onde me levarà a
minha insânia,mas sim que tenho por bem certo
que eu sou o mais feliz dos humanos,quando
olho com a alma e escuto com o corasâo!!
59-60
 

Pretendì um dia,por meu prazer ou vaidade,
ensenhar a voar,como eu voo nas alas da fantasia.
Moito teimei com esta ideia tola e confesso que sofrì,
ao nâo conseguir a formula capaz de levar a bom
termo o ditoso projecto.A mais cruel das
realidades escachava como a fràgiles
ovos,as minhas aspiraçâos.

Tinha entâo iluçâos de abondo,para teimar na ideia de
que o conhecimento è a base de toda emprsa exitosa.
Coitado de mim! Em esto como em tantas outras cousas,
sou um fracasado,Nâo estou eu em condiçâos para
 ensenhar aos que nâo sabem nem tampouco o
conhecemento è a panaceia que todo o resolve.

Com estas reflexâos andava eu e sofria ,mas ei aquì que
J-N. sempre inseparavel me abreu os olhos ao que
eu jamais deduziria por mim mesmo.

-Escuta o que vou a dizer-te: è um facto que o conhecimento
tem valor por si mesmo,mas o que pretendes è irrealizàvel
por umha questâo semantica.

Como podes ensenhar a voar aos outros se nâo eres capaz
de dar nem umha sô pluma das tuas alas! Nâo sabes acaso
que o conecemento tem peso e afunda? Sò as iluçâos,essas
plumas que confomam as alas do ensonho,podem
elevar o homem ao mundo da fantasia!!
61-62
 

Um dia tive um sonho,por nâo dizer pesadelo,no
qual me achava arrodeado de gentes variopintas
mas que ao unìssono clamavam para que eu lhes
entregasse tudo o que era por naturaleza de meu.

Uns diziam: dà-nos o teu saber! Outros: porquè nos
negas a tua sapiència? E outroutos,mais esigentes,
gesticulavam:porquè falas tanto e nâo nos das o
sinal verdadeiro,para que todos os que aqui
estamos alcancemos a felicidade da
que tanto alardeas.

Aminha resposta foi contundente,com as propias
mâos,rachei o peito,arranquei o coraçâo e com
umha faca de fino corte,retalheino de tal
jeito que nem um sô dos alì presentes
ficou sem talhada.

Todos comerom e saborearom,logo eu,jà sem forzas,
vi como insatisfeitos andavam a cata de despojos,
atè que outra caste de rapinheiros apareceu e
começou a devorar o que era jà cadaver.

Entâo despertei e atopeime com J-N. o meu fantasminha
camarada,que,sem darme folgos para respirar e
começar a relatar-lhe o meu pesadelo,
assim me espetou:

-Eis aquì,para o que serve um poeta: em vida, para
alimentar lobos,na morte,para satisfacer o
insaciàvel apetite dos imundos
carronheiros!!
63-64
 

Poque sabemos que estamos como ovelhas
entre lovos,è porque devemos de ser cautos e prudentes
como as serpes e singelos como as pombas,nâo seja que caia
sobre as nossas cabeças a fùria do poder ou a inveja do povo.
Sejamos felizes a nossa maneira,sem violentar aos que polo
força do dinheiro,campam como os facinerosos sem que lhes
frene a sua concupiscència,nem a justiça,nem a consciència,
pois dela carecem;ou que,nâo seja que as turbas embrutecidas
pola paixâo,achem em nôs um simples objecto de expiaçâo
aos seus fracasos. Livrenos Deus, Oh meu amiguinho J.N.
de que tenhamos que apanhar com todo o òdio do mundo,
acumulado nas alforjas dos abutres e nas frustaçâos dos
desnorteados polo querer e nâo poder.
Sejamos,nâo dous e sim um sô,que escuta cala e
sonha. Sim,sonhar e o nosso. Sonhar com um mundo novo
que por força hà de brotar destas noxentas geraçâos,em
estado de descomposiçâo,que nâo tenhem iluçâos
nem aspiram a telas.
O seu è o bandulho e nâo possuem outro ideal nem maior
felicidade que a de chupar da teta e a poder ser da do
estado todo poderoso.
65-66
 

Por que nunca de mal falei bem,poque sempre aplaudì
ao insumiso,elogiei ao revelde e admirei ao indòmito,
vejo-me na obriga de sufrir o repùdio da casta dominadora,
que impudicamente se eleva a categoria de perfeita e intocàvel.
Porque,para suportar o ostracismo e o ailhamento entre o povo,
imposto polos que mandam,sô por ter lustro e poder e fazem
e desfazem ao seu antojo è comenència,travei intima amizade
com J.N. o meu fantasminha camarada,tratam-me de louco e
de alucinado e pretendem curar-me com umha boa dosis de
alienaçâo,como se eu fose umha cobaia,que tâo sô reage aos
estimulos dos sentidos e obra em consequeència à pautas
marcadas por prèmio ao bom comportamento.
Por todas estas cousas e outras que folga enumerar aqui e,
porque graças a ti J.N.eu sou um homem feliz,è porque hoje,
desplegando todas as minhas galas,graciosamente te convido
à percorrer,participando da minha alegria,esse ditoso pais de
ensonho,donde o bem e a bondade,dentro da mais estrita
justiça, sâo a pauta rectora da sociedade e donde a liverdade
è tanta que nem tendo a voz do trono seria o suficiente
para à ovacionar!
67 68
 

Tristas aqueles que consideram signo de dignidade
e perseverància,ao que nâo è mais que a consequència
de perpetuar o dominio atraves da ignorància e do
oscurantismo,por parte do poder estabelecido e
consagrado.
Esto eu rùmio,como o boi exerce a sua natural funçâo
de digerir os variados alimentos que a terra mâe
lhe oferece em estado natural para que o seu existir
perdure.Nâo è facil esclarecer o que està turvo,quando
a falta de conhecementos nâo nos permite alvejar a
fòrmula capaz de conseguir a claridade,mas muito mais
dificel se nos apresenta,quando a esta carència sumamos
a vontade nâo confesada de confundir.
Digo esto,porque dumha feita,J.N. o meu fantasminha
camarada,acercouse a mim e assim me falou:
-Se escutas atantamente,se estas sempre alerta,hàs de
reparar que nunca falta quem observe que o oscurantismo
estabelecido està por acima de toda cultura proivida.
Eis aqui um exemplo: Quem coma ti escreve e fala è
um bastardo! Quem ,como tantos,usa o mòdulo imposto
 polo poder alienante e o exalta machaconamente atè o
 impoer,è sem mais, um ìdolo capaz de fazcinar
rebanhos e criar escola.
69-70
 

Podes dizer-me,Oh meu bom amigo J-N Qual è a diferença
que existe entre o sàbio e o poeta? O que os separa e poe
a um no campo do razonal e ao outro no do irracional?
Acaso è real essa apreciaçâo? Tem visos de verdade ou è
mais um tòpico,entre tantos,espalhados polo poder para
calar a voz dos discordantes,dos que levam umha estrela
na testa e com o seu reflexo explendoroso perturbam ao
imenso coro de bajuladores que ao unìsono lhes elevam
Hosanas? Dime meu fantasminha camarada!
-Entre o poeta e o sàbio,tens que saber que sô existe um
verde prado de flores eternas. Quando o sàbio se adentra
nele e extasiado queda ante o deslumbrante expetàculo
que a naturaleza lhe oferenda,torna-se poeta. Quando o
poeta realiza o mesmo trajecto,transmuta-se em profeta,
mas ei aqui que tanto um como outro,sempre serâo  aos
olhos do mundo,uns loucos.
Pois que outra cousa è a poesia ou a sabiduria,mais do
que umha sublime loucura que emerge do profundo
mistèrio que a sàbia naturaleza oculta aos olhos dos
leigos? -
Quem quira entender que entenda!!
Ao sàbio da-lhe o mesmo umha cousa que outra,pois
ele bem sabe que alem disto.todo è vil poeira
e mìsera vaidade!!
71-72
 

No jardim das mil flores tem umha ocarina de pedra
que se escuta noite e dia. Quando o vento sopra maino,
parece o susurro dum neno ou o gemido dumha donzela
cansada de pular pola campinha em flor.
Quando bufa com còlera o àbrego,ressoa como umha buzina
prenhe de graves sôns,que parecem emerger do mais profundo
da terra como o laio dum gigante encadeado na cova do
reino dos sem retorno.
Neste jardim è donde J.N. mas eu,cavalgamos no crista dum
sonho alvo e passeamos por infindas predeiras donde o verde
nâo desaparece nunca,nem falta jamais umha flor para
atestar o mistèrio sublime da vida.
Aquì entre aromas fragrantes e nâo contaminados pola
concuspicència dos que nadam na fartura,nôs progetamos
futuros de paz e de amor para esta humanidade sem norte
e sem esperanças.
Tamèm as veces realizamos scenas que sâo a
delìcia dos que como nôs sonham despertos. Certo que
 as nossas piruetas sâo impercebiveis para os mais,porende
os que como nos devaneiam,gostam delas e sâo felices.
Sâo poucos os tais,pero sâo os suficientes para encher
a alma de quem como eu,sô conhece a doçura de
sonhar com impossiveis!!
73-74
 

Dime poeta: A donde vas correndo como um atordoado,
olhando para um cèu ainda sem estrelas,nâo reparando no
cham que pisas? Acaso perdestes o sem e andas alelado
a procura das sombras que confomam as nuvens distantes?
Dime poeta: Tem acaso eco o cantar dessa tua voz mimètica
com que pretendes encandilar os ouvidos dos seres que moram
nestes campos? Por ùltima vez te increpo: A que vem esse
alvoroço,essa inexplicàvel agitaçâo,capaz de comover a umha
pedra pero impenetràvel para o cidadâo acomodado e de
costumes moito bem vistas polos rectores da sociedade
que te nutre,? Dime!
-Em verdade, nâo sei o que dizer,a nâo ser que,quem coma ti
jamais entenderà a um homem que tem por seu camarada um
certo fantasminha chamado,J.N. Que è este que lhe dà azos
para sobreviver feliz num mundo de serpes.Que com ele
acha o ànimo necessàrio para sorrir ante o triste espetàculo
que oferece toda esta hipocresia que assola o pais e que è
ele quem lhe proporciona a inspiraçâo suficiente para cantar
cantigas dantes nunca ouvidas e laiar-se assim dos teus
sàtrapas ,meus verdugos. Nâo, Tu nâo podes entender,se
o entenderas,serias mais ou menos como eu e isso nâo
està bem visto em sociedade.
75-76
 

Nimguem neste mundo que deseje fazer o bem
ou que procure dirigir o povo pola senda da justiça
e do amor,actua as agachadas. Aquel que tais cousas
pretende,mostra-se ao mundo.
Quiças fosse pola veracidade destas palavras que J.N.
o meu fantasminha camarada se acercou a mim e assim
me disse: O meu tempo jà se foi,porende,o teu ainda nâo
chegou,mas eu sempre tenho a mâo o amor para combatir
o òdio deste mundo. Ti se tastemunhas contra os renegados
do povo. Se por mei das tuas obras mostras que eles sâo ruins.
Se por a força da palavra consegues que os seus ouvidos
escutem o que nâo lhes agrada,seràs vilipendiado e sofreràs
perseguiçâos. Entâo o teu tempo,tamèm terà passado e seràs
como eu,um simples fantasma, ainda que por circunstàncias
inespicàveis para mim,conserves o corpo e a vida,mas em
posse jà,desse poder regenerador da ensonhaçâo,atravès
do qual poderàs fantasticamente oferecer aos que òdiam,
amor; aos que desfalecem, alento;aos que cobiçam,
humildade; aos que perderom a fê,iluçâo;e aos que
clamam por justiça clarividència para imaginar.
77-78
 

Assim me falou um dia J.N. o meu fantasminha camarada:
Dèixaos,nâo desmioles a cachola! Sâo cegos e guias de cegos!
Escrito està: "Se um cego guia a outro cego,ambos caerâo na
perdiçâo"
Eu me estremecì,ante tâo cruel asseveraçâo,pese a que a experència
da vida,ensenhou-me entre outras moitas cousas,que o machacar
constante das realidades frustantes,acaba minando a resistència do
mais apto.Tâo aplastante è para o simples o peso da desiluçâo!
Foi entâo que resignado e sem outro anseio que o de sobreviver
entre tantas adversidades,apelei a ensonhaçâo e nela achei um lugar
de previlègio,desde o qual olho com pena,mas sem perder detalhe,
todas as peripècies e cabriolas dos que tanto se afanam por galgar
ao poder e tamèm,como se diverte o alienado,todo fechandoso,
indo de acà para alà,como umha marioneta,ao entojo do que
move os fios. È triste verificar estas cousas e o ter que as
espalhar por este fantàstico mundo donde nascì e me criei.
È penoso,sim,mas as tristuras da vida nâo desaparecem
fechando os olhos,nem as misèrias do mundo deixam
de existir imitando à avestruz.Nâo, as sequelas da
vida perduram mais alà da fantasia!
79-80
 

Caminho da morte,a um passo do mais alà tende o homem
a cavilar e fazer balanço da sua longa caminhada. Nâo è
esta umha exclusiva do homem.Lembremos o canto do cisne.
Sendo assim,nâo è de admirar de que,ao botar contas,um
conclui que tâo sô lhe resta,para oferecer como maquia,
ao moinheiro que moe a vida dos humanos,um singelo
monlho de sonhos aos que,por certo,considero de valor
ùneco,pois o sonhar è um acto exclusivamente humano,
do qual nâo participa nengum outro ser vivo.
Expliacarei-me: O acto de nascer e morrer è comum a todos
os seres que sâo portadores de vida;  O acto de realizar cousas
nâo è privativo do homem. Olhem sô os ninhos dos pàssaros
ou as tocas das das alimanhas etc..O acto de intuir, observar,
farejar ou sentir,tampouco è restritivo dos humanos; O mesmo
diremos do acto de crer ou ter fê.Se olhamos aos rebanhos,
logo percebemos como aceptam ao chefe e o seguem atè
a perdiçâo. Sô o acto de sonhar,parece ser previlègio
exclusivo dos humanos. Sendo assim e achando-me
em posse de tamanha bagagem de sonhos,preparado
estou para a grande viagem e a modo de colofom,
direi que là chegando,è que poderei saber ,para
o que vale ser,o mais humanamente possivel,
humano...!!

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